<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314</id><updated>2012-02-16T12:18:18.552-08:00</updated><category term='artigos'/><category term='Versos'/><category term='pessoais'/><category term='crônica'/><category term='causos'/><category term='viagem'/><title type='text'>Esparsas Palavras</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>40</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-4959465367877375722</id><published>2012-01-12T06:41:00.000-08:00</published><updated>2012-01-12T07:01:17.028-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>O nome da dor</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-g37DCVHsStE/Tw7xc4eCIgI/AAAAAAAABSQ/pj1gPL6ZihA/s1600/flor%2Bmorta.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5696756057167241730" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 259px; CURSOR: hand; HEIGHT: 195px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/-g37DCVHsStE/Tw7xc4eCIgI/AAAAAAAABSQ/pj1gPL6ZihA/s320/flor%2Bmorta.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;A primeira fase é a da negação. Você não acredita, refuta veementemente. Mentira estapafúrdia ou uma conspiração para ensandecê-lo. Neste meio-tempo, você vai sentir o chão evaporar-se por debaixo de seus pés. Suas pernas ficarão dormentes, latejantes, como se estivesse bêbado, flutuasse, ou, talvez, tentasse caminhar sob uma superfície irregular. “Piada de mau gosto”, você pensa, enquanto, quase em transe, tenta pôr as ideias no lugar. Mas tudo parece girar ao redor de ti em uma velocidade e sequência ininteligíveis. As pessoas que soluçam a sua volta dão mais verossimilhança à “notícia”, e tornam a cena ainda mais surreal. Como um autista, você vai repetir inúmeras vezes para si mesmo: “Meu filho não pode ter morrido, meu filho não pode ter morrido!”. E vai buscar argumentos sem lógica para embasar sua teoria. “Ontem ele teve uma melhora considerável”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fase seguinte é a mais dolorosa e só se concretiza quando você vê o corpo, ali na sua frente, inerte, sem vida. Não há mentira ou complô: a Morte, com seu bafo quente, soprou sua nuca. No meu caso, entrei na UTI aos atropelos, empurrando para longe dois enfermeiros que tentavam me conter. Meu filho estava ali, deitado, com o rosto levemente voltado para a esquerda e com a boca entreaberta, denotando um quê de alívio. Clichê dos clichês: parecia que dormia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A explosão ou raiva – a terceira etapa – pode vir logo em seguida ou pode demorar um pouco, de acordo com a pessoa. Na minha mulher, o desespero bateu de imediato. Correu à maca e puxou o filho contra o seu peito, em um abraço compulsivo. O descompasso do ato ampliou minha dor. Era como se ela abraçasse um boneco, em um teatro grotesco. Virei as costas e saí, cegado pelas luzes frias do corredor do hospital. A cada passo, meu sangue entrava em ebulição. Atravessei a porta de vidro em um soco, enquanto um dos cacos rasgava-me o antebraço em um corte longitudinal. A cada ponto que o médico me dava, eu soltava um palavrão diferente. Não havia dor física, mas a necessidade de libertar o sofrimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Por que? Deus, você se acha tão maravilhoso, a ponto brincar com a vida, como se as pessoas fossem marionetes manipuladas por ti? Que vá ao diabo! Está feliz agora?” Lembrei-me de meu bisavô – italiano do Vêneto – que em suas eternas “rixas” com Deus, voltava-se para o céu e cruzava os dedos, como se fizesse uma forca. “Grandessíssimo filho da puta”, vociferava. Quando o doutor apertou a última sutura, lembrei-me da cor de cera do meu filho morto. O que era ele agora? Um amontoado de carne sem vida. Uma ânsia subiu-me de uma vez. Vomitei no meio da sala. Na faculdade, um professor sempre repetia, como um bordão: “O ser humano é um saco de bosta”. Não passamos disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na última fase, você se resigna, aceita. Mais por cansaço do que por convicção. Você está em frangalhos, dilacerado e sabe que nunca mais será a mesma pessoa. Carrega uma bela tatuagem na alma, que sempre estará ali, te lembrando da dor, da dor, da dor. Você vai manter o quarto dele intacto, com os livros, os brinquedos, as fotografias. Sentirá falta da bagunça, da maneira como ele te abraçava. De quando em quando, vai abrir o guarda-roupa e cheirar desesperadamente as camisetas dele, tentando, por meio desse ritual desesperado, resgatá-lo de volta à vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não pense que a aceitação ocorre mais rapidamente para quem tinha o filho doente. O meu tinha câncer na medula. Lembro-me, coitadinho, do choro contido quando foi obrigado a rapar os cabelos, que cairiam por conta da quimioterapia. Passei gilete nos meus, para demonstrar apoio, mas, eu pergunto: adiantou? Quando se tem parente em hospital, se espera que ele saia curado, livre, saudável. Ninguém acredita que a Morte está a espreitar. A esperança é renovada a cada dia, a cada procedimento, a cada etapa do tratamento. É dor do mesmo jeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu filho só tinha nove anos. Não o vi sentar-se à sala numa tarde de sábado, para apresentar sua primeira namorada. Não o repreendi pelo primeiro porre que tomou com os amigos. Não passei noites em claro ao lado dele, ajudando-o estudar para a recuperação final. Não enxuguei suas lágrimas quando teve a primeira decepção amorosa nem vibrei quando passou no vestibular. Não pude ensiná-lo a dirigir nem filosofar sobre a vida com ele ao cair da tarde. Por que? Eu não sei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fio que separa Vida e Morte é muito tênue. Morrer não tem sentido, não tem graça, não tem lógica. O absurdo é ainda maior quando a ordem natural se inverte e quem se vai é um filho. A sabedoria popular diria que o correto é os filhos enterrarem os pais, e não o inverso. Concordo. Quem perde a esposa, fica viúvo. Se o filho perde os pais, torna-se órfão. Mas quando quem morre é o filho, não há nome, não há designação. Talvez porque, neste caso, seja impossível classificar a dor. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;Curitiba, 12 de janeiro de 2012&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-4959465367877375722?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/4959465367877375722/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2012/01/o-nome-da-dor.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/4959465367877375722'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/4959465367877375722'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2012/01/o-nome-da-dor.html' title='O nome da dor'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-g37DCVHsStE/Tw7xc4eCIgI/AAAAAAAABSQ/pj1gPL6ZihA/s72-c/flor%2Bmorta.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-273317320266797181</id><published>2011-08-20T13:19:00.000-07:00</published><updated>2011-08-20T14:17:13.850-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pessoais'/><title type='text'>As revistas do Gim</title><content type='html'>&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-paN846_vuhY/TlAYMcBk8RI/AAAAAAAABLk/ImGuv2y7Emg/s1600/playboy.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5643036935055536402" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 234px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/-paN846_vuhY/TlAYMcBk8RI/AAAAAAAABLk/ImGuv2y7Emg/s320/playboy.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia; "&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;As mulheres mais desejadas do Brasil ficavam naquela barbearia, lindas, nuas, apetitosas e em poses provocantes. Tudo bem que elas não estavam ali em carne, osso e voluptuosidade, mas impressas em folhas de dezenas e dezenas de revistas. Mas para nós - garotos de nove, dez anos, recém-saídos dos cueiros - aquelas páginas eram como entrar em um universo proibido. Primeiro passo pelos caminhos desconhecidos da sexualidade. Quantos meninos não tiveram seu primeiro “alumbramento” (como diria Bandeira) folheando a incrível coleção de Playboy’s do salão do Gim?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Cortar o cabelo era um ritual. Escolhíamos as tardes de sábado, porque havia sempre mais clientes e teríamos mais tempo para degustar as páginas. As revistas ficavam em armário de madeira no fundo do salão e o curto trajeto até lá parecia infindável. Era como se todos os homens do recinto olhassem para a gente. Com ar de transgressão, pegávamos uma das publicações sem escolher muito e retornávamos ao banco com o peito estufado, como se exalássemos masculinidade. Ali, entre as tesouradas hábeis do Gim, nos deleitávamos entre peitos, curvas, sorrisos, lábios e dedinhos na boca. O difícil era esconder o impacto que a “leitura” nos causava, nós, pobres meninos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Às vezes, Gim olhava feio em nossa direção e assoviava, meneando a cabeça, repreendendo o nosso ávido interesse por aquelas revistas. Mas essa censura se dava por detrás de um sorriso contido, como quem se diverte com “artes” de moleques. Com o tempo, o Serginho desenvolveu algumas estratégias. A principal era colocar a Playboy no meio de uma revista de carros, despistando os olhos inquisidores dos velhos abutres.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Vez ou outra, aparecia algum menino levando um amigo menor para conhecer os segredos escondidos do salão do Gim. Era quase uma tradição. Para não quebrar a corrente, eu mesmo, apresentei a coleção de revistas a um primo, então com oito anos. A reação dele foi espontânea: “Tô com o pipi duro!”, exclamou, para risos gerais na barbearia. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Assim, crescíamos entre os cortes do Gim (“aparado-curto”, “tigelinha” ou “arrepiado”?) e as semi-deusas que povoavam aquelas folhas de papel e os nossos sonhos. Adquirimos uma capacidade incrível de memorizar cada detalhe daquelas mulheres. Na hora do recreio, na escola, nos reuníamos no canto do pátio para trocar impressões e para discutir sobre nossas preferências. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Luma de Oliveira ou Bruna Lombardi? Vera Zimmerman ou Cláudia Ohana? Isadora Ribeiro ou Cristiana Oliveira? Nem a Mara Maravilha escapou... (Éramos capazes de descrever com precisão cada uma delas...). Seios fartos ou miúdos? Loira, negra, ruiva ou morena? Pêlos pubianos? (Tenho pra mim que a legendária pose da Adriane Galisteu rapando a própria virilha – já alguns anos mais tarde – foi um divisor de águas e selou a onda da depilação).&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Gim morreu há alguns anos (foi-se muito novo), mas a barbearia continua cravada no centro da cidade, tocada por seu aprendiz, o Totó. Segundo consta, as revistas permanecem no mesmo armário de madeira, ao fundo do salão, mas já não fazem tanto sucesso. Perderam espaço para a concorrência desleal dos filmes pornográficos piratas (três por R$ 10) e para internet. Já não há aquele ar de transgressão, o medo de que alguém contasse para nossas mães. Já não é preciso decorar as imagens até o mês seguinte. Tudo está tão fácil, tão acessível, que até deve ter perdido a graça. Duvido que uma clicada tenha o mesmo sabor dos sábados entre as páginas da barbearia. Gim se foi. O encanto das revistas também.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Curitiba, 20 de agosto de 2.011 &lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-273317320266797181?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/273317320266797181/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2011/08/as-mulheres-mais-desejadas-do-brasil.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/273317320266797181'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/273317320266797181'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2011/08/as-mulheres-mais-desejadas-do-brasil.html' title='As revistas do Gim'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-paN846_vuhY/TlAYMcBk8RI/AAAAAAAABLk/ImGuv2y7Emg/s72-c/playboy.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-833870032838894664</id><published>2011-08-07T08:10:00.000-07:00</published><updated>2011-08-07T08:38:37.295-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>Sobre raios</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-CnC8wpuYXeM/Tj6taeddhMI/AAAAAAAABK4/hGirqZ0ZK6g/s1600/raio7.jpg" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;" src="http://3.bp.blogspot.com/-CnC8wpuYXeM/Tj6taeddhMI/AAAAAAAABK4/hGirqZ0ZK6g/s320/raio7.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5638134453879276738" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;span&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia; "&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;“Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar”. Não me lembro quando foi a primeira vez que ouvi a frase (terá sido dita por meu pai ou pelo meu tio?), mas eu sempre a usava quando a vida me presenteava com algo significativo. É como se eu quisesse dizer para mim mesmo que estava diante de algo extraordinário ou de uma chance única e que, obviamente, eu não poderia desperdiçar: perder tais dádivas seria não aceitar uma benção.&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia; "&gt;Pois foi justamente esse “dito popular” que, inconscientemente, me veio à tona quando vi Fabiana pela primeira vez, naquela tarde de janeiro. Ela sorria espontaneamente por de trás de óculos escuros e em um biquíni verde-água, que parecia ter sido desenhado naquele corpo delgado. Deitada entre duas amigas, às margens do rio, era como se ela tivesse nascido para aquela cena. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia; "&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia; "&gt;Naquele exato instante, o raio me atingia em cheio (figurativamente, é claro), me eletrificando da cabeça aos pés. O que era aquilo? Eu não sabia definir. Mas quando passei ao lado dela (ela ajeitava o rabo de cavalo), um sorriso bobo estampou meu rosto. Foi Eduardo, o amigo que me acompanhava, quem sentenciou: “Amor à primeira vista”. Eu só pude murmurar: “Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar”.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia; "&gt;Meu primeiro impulso era me atirar, era viver aquela eletricidade que o raio fazia correr pelos meus nervos e faiscar por meus poros. Foi aí que aprendi que quanto mais precioso o bem, maior o medo de perdê-lo. Nessas condições, arriscar torna-se mais penoso. Receio do “não” pesa, embora o não arriscar-se já significa ostentar o “não”. Fiz como o servo que enterrou seu talento, ao invés de multiplicá-lo. É como se a benção se desvanecesse aos poucos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia; "&gt;Lembro-me de Fabiana metida em um shorts jeans e uma camiseta preta, ao som das marchinhas do carnaval daquele ano. Dos sábados em que ela passava pela rua central, sempre com seu sorriso que combinava tons de sinceridade e timidez. Das vezes em que eu a procurava nos lugares mais improváveis, nem que fosse só para vê-la passando. E de ver passando, passando, passando,... todas as oportunidades passaram. Perdeu-se a chance única, desperdiçou-se o algo extraordinário e a benção se dissipou...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia; "&gt;Cedo ou tarde, a vida (o Universo, ou Deus, ou o acaso, ou como queira chamar) cobra pelos talentos que enterramos, pelas vezes que abraçamos o “não” por receio de tentar o “sim”. Os caminhos se bifurcaram. Minha estrada se estendeu para longe da de Fabiana. Mas mínimas cenas continuavam a trazê-la de volta, de modo que ela foi presença perene, em algum lugar dentro de mim. Nessas horas, é preciso se deseletrificar à força. Fechar os olhos ao que se sente e ao que está vivo dentro de si, mesmo que isso signifique enganar-se descaradamente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia; "&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Agora, caminho pelas ruas da minha cidade. Os pés descalços, sentindo a terra entre os dedos. Miro o rio e suas águas que correm com calma. O vento sopra, como se trouxesse um bom presságio. Olho na curva: é o mesmo sorriso por detrás dos óculos escuros. É Fabiana que vem, entre a sinceridade e a timidez. Sinto a corrente elétrica me devolver anos que ficaram para trás. Desta vez, no entanto, não fecharei os olhos. E quando Fabiana passa por mim, estendo-lhe a mão. Um raio cai, sim, pela segunda vez no mesmo lugar.&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Início de 2.011&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;i&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-833870032838894664?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/833870032838894664/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2011/08/sobre-raios.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/833870032838894664'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/833870032838894664'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2011/08/sobre-raios.html' title='Sobre raios'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-CnC8wpuYXeM/Tj6taeddhMI/AAAAAAAABK4/hGirqZ0ZK6g/s72-c/raio7.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-6692354131329849693</id><published>2011-07-27T17:55:00.000-07:00</published><updated>2011-07-27T18:14:14.545-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>"Antes ele do que nós"</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-yuhvlzKIY6I/TjCz5Eha5gI/AAAAAAAABKo/uXc-RFdvP14/s1600/muros.jpg" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 190px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-yuhvlzKIY6I/TjCz5Eha5gI/AAAAAAAABKo/uXc-RFdvP14/s320/muros.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5634200926888322562" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;T&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia; "&gt;odas as noites, meu pai se apoiava na mureta do terracinho de casa e ali permanecia, como quem ruminava os acontecimentos do dia, dando-lhes o peso exato que cada um merecia. Era quase como um ritual. Nós, as crianças, dedicávamos os últimos instantes de liberdade em brincadeiras como “salva”, “esconde-esconde”, “mãe-da-rua”, ou o bom e velho futebol. Sabíamos que em breve estaríamos resmungando ao chamado de nossas respectivas mães, que nos indicaria o rumo do banho. Vivíamos com a intensidade e o desapego típicos de pequenas cidades do interior. E era como se a atmosfera noturna abençoasse todo aquele contexto.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia; "&gt;De quando em quando, um dos vizinhos se achegava à muretinha e puxava um dedo de prosa com meu pai. Meu velho sacava um maço de cigarros do bolso da camisa, metodicamente escolhia um – embora fossem todos iguais – e batia com a base do filtro três vezes contra a caixa de fósforos, antes de metê-lo na boca e acendê-lo. Entre baforadas, cuja fumaça formava desenhos ininteligíveis no ar, tecia-se comentários acerca dos mais variados assuntos. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia; "&gt;O tema da conversa variava de acordo com as pessoas que compunham a roda. Seu Pedro gostava de política e, naquela época, andava acabrunhado por conta de um tal de confisco de poupanças. Dango era dado a falar sobre futebol e, com seu português carregado, desandava a comentar sobre “Parmera” e “Curíntia”. Luís era um bom contador de “causos”, capaz de prender a atenção de quem quer que fosse, com suas histórias sempre bem ritmadas. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia; "&gt;Assim, corriam todas as noites, exceto quando falecia alguém. Pouco a pouco, os homens da vizinhança se juntavam frente ao terraço de minha casa. Inicialmente, todos procuravam falar baixo, em sinal de respeito. Nestas ocasiões, as crianças não se metiam em algazarras pela rua, mas ficavam perto, acompanhando em silêncio a prosa dos adultos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia; "&gt;Invariavelmente, as conversas eram conduzidas pelo seu Baldo – um gorducho bonachão, que morava na rua de baixo. Ele ajeitava os cabelos brancos que lhe restavam na lateral da cabeça e puxava pela memória histórias envolvendo o falecido. Narrava passagens que sempre soavam positivas à memória do morto, como se tentasse deixar impressa na memória de todos uma boa imagem do conhecido que partiu.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia; "&gt;Os intervalos entre um causo e outro eram preenchido com expressões como: “Fazer o quê, né? Descansou...”, “Ainda ontem estive com ele...”, “Pra morrer, basta estar vivo...”, “É... é a única certeza que a gente tem”. Assim, a conversa transcorria, até que alguém começava a olhar para o relógio. Seu Baldo, então, contava uma derradeira história e finalizava:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia; "&gt;- Antes ele do que nós! &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia; "&gt;A frase era dita com um ar meio matreiro, em um tom tênue de ironia contida. Soava como se, indiretamente, o círculo celebrasse a vida, sem deixar de respeitar o morto. Aquilo – de acompanhar a conversa dos adultos – era o primeiro contato das crianças com a morte. Com o &lt;i&gt;grand finale&lt;/i&gt; de seu Baldo, a morte deixava de ter aquele ar pesado, da senhora que traja preto e empunha uma foice. Era uma maneira suave de botar um ponto-final em um assunto pesado. Enfim, todos podiam ir para suas casas, dar conta de suas vidas. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia; "&gt;Foi em uma noite de junho. Os adultos se reuniram em frente ao terracinho de minha casa, com o mesmo semblante anuviado de quando alguém morria. Brincadeira interrompida, com a bola sob o braço, percorri o rosto de cada um daquela roda. O seu Baldo não estava lá. Só então percebi que era ele quem havia falecido. Naquele dia, ninguém soube conduzir o rito e contar causos com tanta graça. Ao fim, pensei com meus botões: &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia; "&gt;- Antes ele do que nós! &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia; "&gt;E a vida seguiu...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;i&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia; "&gt;&lt;i&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;Curitiba, 26 de julho de 2.011&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-6692354131329849693?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/6692354131329849693/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2011/07/antes-ele-do-que-nos.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/6692354131329849693'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/6692354131329849693'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2011/07/antes-ele-do-que-nos.html' title='&quot;Antes ele do que nós&quot;'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-yuhvlzKIY6I/TjCz5Eha5gI/AAAAAAAABKo/uXc-RFdvP14/s72-c/muros.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-3948332591122235303</id><published>2011-07-01T20:20:00.000-07:00</published><updated>2011-07-01T20:41:16.827-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>O último baile</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-PSiet1Byvjc/Tg6P31od1fI/AAAAAAAAA_k/vCg3kw7iovw/s1600/baile-gala-dec40_jpg.jpg" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 202px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-PSiet1Byvjc/Tg6P31od1fI/AAAAAAAAA_k/vCg3kw7iovw/s320/baile-gala-dec40_jpg.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5624591174084711922" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(85, 85, 85); font-family: georgia; line-height: 19px; font-size: small; "&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(85, 85, 85); font-family: georgia; line-height: 19px; font-size: small; "&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(85, 85, 85); font-family: georgia; line-height: 19px; font-size: small; "&gt;&lt;i&gt;Precário, provisório, perecível;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(85, 85, 85); font-family: georgia; line-height: 19px; font-size: small; "&gt;&lt;i&gt;Falível, transitório, transitivo;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(85, 85, 85); font-family: georgia; line-height: 19px; font-size: small; "&gt;&lt;i&gt;Efêmero, fugaz e passageiro&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(85, 85, 85); font-family: georgia; line-height: 19px; font-size: small; "&gt;&lt;i&gt;Eis aqui um vivo, eis aqui um vivo!&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(85, 85, 85); font-family: georgia; line-height: 19px; font-size: small; "&gt;Vivo (Lenine)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(85, 85, 85); font-family: georgia; line-height: 19px; font-size: small; "&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(85, 85, 85); font-family: georgia; line-height: 19px; font-size: small; "&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;As luzes do anel periférico do salão eram as primeiras a serem acendidas. Era um sinal: o baile estava para se acabar. Quem frequentava o clube, sabia que havia cerca de quinze minutos antes do fim. Era o tempo exato para a banda executar três ou quatro músicas, no máximo. Dentro em breve, outros pontos iam se iluminando, de fora para dentro do salão, afastando a atmosfera quase onírica que embalava os casais. As lâmpadas eram de sódio e demoravam um tanto para se aquecerem e clarearem completamente o ambiente. Era nesse meio-tempo que os homens que ainda não tinham conseguido “sua pequena”, se lançavam em um último afã, derradeiro suspiro.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Muitos pareciam aguardar a noite toda por este momento. &lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt; &lt;/span&gt;Era como se o acender das luzes que margeavam o salão fosse um subterfúgio. Era como se, neste instante, as pessoas se imbuíssem de um estágio coletivo que as inclinavam a desviar do “não”. Sim, elas ficavam mais “fáceis” – como se dizia. Deixar o “tiro final” para esta etapa era uma estratégia e tanto! Quantos casais não se formaram sob a névoa das lâmpadas se acendendo no fim dos bailes?&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Eu já conhecia Marília havia algum tempo. Quatro meses talvez. Mas foi neste baile que se deu o crucial. Eu estava lá, com meus sapatos gastos, na ala esquerda do salão, quando ela chegou. Envergava um vestido em tons de roxo que lhe davam um quê de atriz de Hollywood. Ela ajeitava debilmente os longos cabelos, logo depois do primeiro intervalo, quando tomei sua mão direita. O toque a assustou, como se eu fosse uma aparição do além, mas espanto inicial se desfez em um sorriso gracioso. Meu corpo suava sob o colete do terno e, a muito custo, a minha voz se pronunciou. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Dançamos uma sessão inteira. O corpo dela se alinhava perfeitamente ao meu, e descrevia movimentos perfeitos, ao compasso da orquestra. Extasiado, de quando eu quando, eu perdia o passo. Marília sorria e, ao meu ouvido, sussurrava: “Vamos! Está tudo bem”. Eu sorvia o perfume dela como se fosse uma droga. Ao sentir aquele pequeno coração, batendo tão perto do meu peito, era como se toda a vida se justificasse. Foram eternos aqueles vinte e três minutos (que foi o quanto durou a sessão).&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Não mais dançamos naquela noite, mas meus olhos procuravam Marília a cada instante. Quando se encontravam com os dela, ela desviava o olhar, com um quê de timidez que lhe realçava a beleza. Ficamos neste jogo de “gato-e-rato” o resto da noite. A minha vontade era puxá-la pela cintura e beijar-lhe a boca ali mesmo, ao centro do salão, mesmo que isso escandalizasse aquela sociedade hipócrita. (Aquela mesma sociedade que me julgava por ter sapatos gastos e por usar um mesmo terno a semana toda. Preferiam comprar roupas, já que dignidade mesmo não se vende em qualquer bazar).&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Mas quando as luzes da ala periférica se acenderam, eu me quedei petrificado. Não tive o impulso, a coragem necessária de dar o passo adiante. O passo crucial: felicidade ou fracasso. Inerte, travado, contido, inconscientemente preferi a dúvida. E carrego comigo esta dúvida – do que poderia ter sido e não foi – pelos últimos setenta e dois anos. E essa dúvida é o que mais me dói, me consome, me dilacera.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Agora, estou deitado neste leito de hospital, minha filha, e sinto o câncer se alastrando e consumindo, pouco a pouco, todos os meus órgãos. Rogo a Deus para que, em uma dessas, este mal do século consuma esta dor, que é a dúvida, a eterna falta de Marília. Que fim terá levado ela? Não me lembro ou a doença também consumiu as minhas lembranças, a minha memória? &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Filha, segure a minha mão. Você que está quente, ou eu que estou demasiadamente, frio? Vejo as lâmpadas do canto do salão se acendendo. Ouça que bela música a orquestra deixou para o fim! As outras luzes já, já também vão se acender. O burburinho dos casais começa a cessar. Os últimos passos desfilam sua graça pelo salão. A canção já está indo para os acordes finais. O baile, enfim, terminou...&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: right;"&gt;Curitiba, 2 de julho de 2.011 - 00h24&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-3948332591122235303?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/3948332591122235303/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2011/07/o-ultimo-baile.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/3948332591122235303'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/3948332591122235303'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2011/07/o-ultimo-baile.html' title='O último baile'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-PSiet1Byvjc/Tg6P31od1fI/AAAAAAAAA_k/vCg3kw7iovw/s72-c/baile-gala-dec40_jpg.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-5987848420209188707</id><published>2011-06-19T14:46:00.000-07:00</published><updated>2011-07-01T20:31:21.150-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>O dia em que a Terra parou</title><content type='html'>&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-2AITFRgDdes/Tf5uXdu4nfI/AAAAAAAAA-4/lQWyaiFuAAg/s1600/prensa.jpg" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"&gt;&lt;img style="text-align: justify;display: block; margin-top: 0px; margin-right: auto; margin-bottom: 10px; margin-left: auto; cursor: pointer; width: 320px; height: 255px; " src="http://2.bp.blogspot.com/-2AITFRgDdes/Tf5uXdu4nfI/AAAAAAAAA-4/lQWyaiFuAAg/s320/prensa.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5620050734402280946" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Naquele dia, nada aconteceu.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;De manhãzinha, seu Benjamin cruzou a soleira da porta, arrastando pesadamente seus usuais chinelos. Em seu passo miúdo, foi até o portão, onde o entregador costuma deixar o jornal. Olhou para um lado e para o outro. Vasculhou atrás da caixa de correio (podia ser que o moleque tivesse se enganado). Nada! Sem alternativa, voltou para dentro praguejando e tomou seu café com bolachas sem ler as notícias sobre a última crise do Planalto, como fazia todos os dias.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;No mesmo horário, Renato deixou seus dois filhos na escola. Ligou o rádio do carro e tentou sintonizar na emissora especializada em dar boletins de trânsito. Precisava chegar ao escritório antes das oito horas para se preparar para aquela reunião importantíssima. As dicas do repórter seriam valiosas para evitar os pontos de maior congestionamento. Percorreu todo o &lt;i&gt;dial&lt;/i&gt;, mas todas as estações noticiosas tocavam apenas músicas. Nem um boletim, nem uma notinha. Nada de notícias.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;De sua casa, o professor Rocha conectou-se à&lt;i&gt; internet&lt;/i&gt; e acessou o &lt;i&gt;site&lt;/i&gt; do principal jornal da capital. Queria saber se o aeroporto estava operando normalmente, pois tinha um voo marcado para o fim da manhã. A página, no entanto, só exibia matérias antigas, do dia anterior. Tentou o&lt;i&gt;site&lt;/i&gt; da concorrência: mesma coisa. Passou a mão ao telefone e tentou ligar para a administração do aeroporto. Ocupado. Na certa, linha congestionada pelas centenas de usuários tentando conseguir informações sobre o terminal.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Após o almoço, dona Rose se acomodou no sofá para assistir ao telejornal do meio-dia. Estranhou: passava uma sessão de desenhos animados. “Devem ter se atrasado”, pensou. Esperou quinze minutos, meia hora... Só os personagens a fazer suas traquinagens. E, naquele dia, foi assim com todos os veículos. O jornal “espreme que sai sangue” não circulou, assim como não foi ao ar o programa de fofocas. Também não se ouviu a voz do âncora da rádio, nem o comentário do analista econômico.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Ninguém ficou sabendo do resultado da votação daquele projeto de lei, nem que o coronel da PM foi preso por concussão. Ninguém pôde se comover com o acidente entre o caminhão e a van escolar, nem chorar a morte do cantor de sucesso que estava internado. Ninguém soube da oscilação da bolsa, da cotação do dólar nem dos impactos na economia da crise na Grécia. Ninguém teve acesso aos detalhes do último escândalo do Senado nem pôde ler a matéria denunciando o esquema de um deputado para desviar milhões em verbas públicas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Nos setores comerciais e administrativos dos jornais, tevês e rádios, os telefones não paravam de tocar. Desde leitores e espectadores indignados com o lapso, aos anunciantes protestando e alegando prejuízos pela falta de circulação de notícias. Presidentes e diretores dos veículos de comunicação se reuniam, pensando ao menos num paliativo para o impasse.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Em frente às redações, repórteres, redatores, editores, apresentadores, enfim, jornalistas em geral cruzavam os braços. Apenas uma faixa tímida denunciava o motivo da paralisação: “Jornalista ganha mal!”. Somente quem passava por ali sabia o que, de fato, estava ocorrendo. Mas efeitos da greve, direta ou indiretamente, todos sentiram. Um senhor que passava em frente à sede de um jornal puxou um repórter de canto e perguntou:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;- Por que tudo isso, meu caro?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;- A dor da gente não sai no jornal...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Naquele dia, nada aconteceu...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right; "&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Curitiba, 19 de junho de 2011&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;i&gt;Pesquisa do Dieese apontou que o piso salarial de 95% das categorias tiveram aumento real em 2010. Os jornalistas estão entre os outros 5%, que estão com os salários estagnados.&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;i&gt;A proposta de reajuste das empresas é de 1%.&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-5987848420209188707?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/5987848420209188707/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2011/06/o-dia-em-que-terra-parou_19.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/5987848420209188707'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/5987848420209188707'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2011/06/o-dia-em-que-terra-parou_19.html' title='O dia em que a Terra parou'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-2AITFRgDdes/Tf5uXdu4nfI/AAAAAAAAA-4/lQWyaiFuAAg/s72-c/prensa.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-2482592831434191210</id><published>2011-06-12T13:34:00.001-07:00</published><updated>2011-06-19T14:35:10.469-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='viagem'/><title type='text'>Infância</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-pTBVuQUNNQ4/TfUjMJ-dMOI/AAAAAAAAA-Y/4TWsugeu3wY/s1600/28.jpg" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-pTBVuQUNNQ4/TfUjMJ-dMOI/AAAAAAAAA-Y/4TWsugeu3wY/s320/28.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5617434801957843170" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" &gt;Pela janela do Trem da Morte, eu vislumbrava as milhares e milhares de estrelas que emprestavam um ar mágico àquela noite de 3 de maio. Na fileira oposta de acentos, o Zé Renato dormia, enquanto o Flavinho também se maravilhava com o espetáculo noturno. De quando em quando, trocávamos impressões sobre a paisagem, e a paz que pairava sobre nós dava a impressão de que aquela noite estrelada não acabaria nunca. Já estávamos havia oito horas no trem e a viagem ainda se estenderia por outras doze, até chegarmos a Santa Cruz de la Sierra.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" &gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" &gt;Em pouco tempo, paramos na estação de um pequeno vilarejo boliviano. A exemplo do que aconteceu nas outras paradas, várias crianças passam pelos vagões, apregoando coisas (empanadas, &lt;i&gt;majaritas&lt;/i&gt;, limonadas e frutas) em uma entonação bastante característica, acentuando a penúltima sílaba das palavras. “&lt;i&gt;Chirimóóóóóóóya!&lt;/i&gt;”.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" &gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" &gt;Detenho-me observando uma menina que deve ter no máximo oito anos. Ela passa de poltrona em poltrona, oferecendo &lt;i&gt;mananzilla,&lt;/i&gt; uma espécie de chá. Agora acordado, o Zé Renato compra um copo da bebida e finge pedir desconto. A garotinha sorri um riso entre tímido e puro, como quem se diverte com seu afazer. Só mais tarde é que percebi que o conceito de infância é outro na Bolívia.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" &gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" &gt;Agora é 7 de maio e estou à entrada de uma mina de prata, em Potosí. Enquanto recebemos as últimas recomendações do mineiro que nos serve de guia, um grupo de crianças se aproxima. Um deles me puxa pela mão e pede “&lt;i&gt;ojas de coca&lt;/i&gt;”. (“Es para mi papá, que está trabajando acá”, diz). Dou-lhe um punhado de folhas e ele sai correndo. Em instantes, no entanto, ele está de volta, com seus amigos. Mastigam bolachas de água e sal e se interessam quando percebem que estou fotografando-nos. Pedem para tirar fotos comigo e, em seguida, se divertem olhando o visor.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" &gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" &gt;- &lt;i&gt;Donde estoy, donde estoy?&lt;/i&gt; - perguntam-se, enquanto procuram a própria imagem.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" &gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" &gt;Em geral, as crianças bolivianas têm traços sutilmente indígenas e carregam consigo um quê de ingenuidade. É bonito quando conversam entre si, falando rapidamente, em um castelhano bem acentuado. Olho para aqueles pequenos brincando com pedras e penso em que tipo de futuro os espera. Trabalhar nas minas de Cerro Rico e passar doze horas ininterruptas em uma galeria, explodindo dinamites, carregando pedras e aspirando aquela poeira grossa? Será que aos vinte e cinco anos terão a aparência de quem tem quarenta, como a maioria dos mineiros?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" &gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" &gt;Na manhãzinha de 9 de maio, estamos em Uyuni, e tomamos café em um restaurante antes de embarcarmos rumo ao deserto, onde ficaremos por três dias. O pequeno estabelecimento está lotado por cerca de vinte turistas – e alguns brasileiros, além de nós (e é muito bom poder falar português). Um garoto de no máximo dez anos é quem cuida de atender todas as mesas, tirar os pedidos, entregar os pratos e fechar as contas. Em determinados momentos, a campainha da cozinha toca insistentemente. &lt;i&gt;“Ya me voy!”&lt;/i&gt;, grita o rapazinho, sobrecarregado de serviço, enquanto corre de lá para cá.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" &gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" &gt;O Flavinho não percebe que ele vinha servir os pratos em nossa mesa e, ao se virar, acerta um copo de suco com o cotovelo. O moleque faz cara de poucos amigos e limpa a sujeira em silêncio. Minutos depois, traz um novo copo, mas adverte. &lt;i&gt;“Tiene que pagar por el jugo”&lt;/i&gt;. Ele já não traz mais os traços tênues da infância. Já tem o cenho permanentemente franzido, de quem teve seus anos mais preciosos roubados pela responsabilidade.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" &gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" &gt;Cada país tem suas peculiaridades, suas diversidades e idiossincrasias. Na Bolívia, no entanto, é muito evidente que inocência e infância são conceitos vagos e diversos dos que temos por aqui. Fenômeno que pode estar atrelado e ser explicado por uma infinidade de outros fenômenos. Mas a diversão infantil, na Bolívia, é uma extensão do trabalho. Infelizmente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" &gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" &gt;&lt;i&gt;Curitiba, 12 de junho de 2.011&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-2482592831434191210?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/2482592831434191210/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2011/06/infancia_12.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/2482592831434191210'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/2482592831434191210'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2011/06/infancia_12.html' title='Infância'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-pTBVuQUNNQ4/TfUjMJ-dMOI/AAAAAAAAA-Y/4TWsugeu3wY/s72-c/28.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-8837993683003409155</id><published>2011-03-21T19:57:00.000-07:00</published><updated>2011-03-21T20:05:45.841-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>Tempos Modernos</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-diCZ4SYVMcY/TYgQ7okaUpI/AAAAAAAAAss/wT7QEYW7JEk/s1600/namorinho.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5586733954441564818" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/-diCZ4SYVMcY/TYgQ7okaUpI/AAAAAAAAAss/wT7QEYW7JEk/s320/namorinho.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;em&gt;Você não gosta de mim, mas sua filha gosta!&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Jorge Maravilha (Chico Buarque)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Iniciar um namoro, no meu tempo, era diferente. Não, não é saudosismo. Trata-se apenas de uma constatação. Era algo que exigia estratégia e coragem. Quando esta última ameaçava me faltar, eu recitava mentalmente, tal qual um mantra, a máxima atribuída a Machado, o de Assis: “As melhores mulheres pertencem aos homens mais atrevidos”. E lá ia eu, com o ar mais respeitável que minhas primaveras pueris permitiam que eu assumisse, enfrentar o “sogro”, este eterno temido (ao menos no meu tempo, assim o era).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ato de “pedir a mão” da “escolhida” ao pai era de tal modo árduo, que, se Hércules tivesse vivido na última década do século XX, com certeza esta tarefa figuraria entre seus doze trabalhos. De fato, não era fácil afundar-se no sofá da sala, sob os olhos inquisidores do “pai dela”, altivo na poltrona. A voz sempre falhava, enroscando-se na garganta, enquanto uma gota de suor insistia em escorrer da têmpora, denunciando o óbvio: nervosismo à flor da pele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o tempo, vieram uns “macetes” para minimizar os efeitos colaterais. Firmar bem os pés no chão fazia com que as pernas não tremessem tanto. Outra boa “tática” era levar sempre duas flores: uma para a “amada”, outra para a “sogra”. Mas tiro-e-queda mesmo era usar os dois primeiros minutos da conversa para descobrir de que o “pai dela” mais gostava. Se o velho fosse da turma do automobilismo, bastava elogiar o Senna; se fosse São-paulino, era soltar um “geração igual do Raí não vai ter”; se fosse “reaça”, bastava falar bem do Sarney e do FHC.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda que fôssemos bem nas considerações iniciais, ainda tinha o inevitável diálogo sem fim:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vocês se conheceram onde?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Em um bailinho na casa do Luciano. Dançamos uma sessão inteira de Roxette.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- No meu tempo ouvíamos Sinatra. Já ouviu falar em Sinatra?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Satriani?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Esquece... essa sua camiseta é de propaganda?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não. É de um show dos Rolling Stones...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fim, o “sogro” até autorizava o relacionamento, mas com inúmeras ressalvas, entre as quais “entregar” a filha em casa até as onze da noite, não matar aulas para ficar de namorico e “nada de gracinhas”. Nós, os homens, jurávamos que seríamos bons moços e, como se fôssemos nos casar na semana que vem, soltávamos: “o senhor não vai se arrepender. Vou fazer a sua filha muito feliz”. Ao que o sogro respondia com um muxoxo de desalento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje as coisas mudaram um pouco. Já não há bailinhos como os da casa do Luciano, nem as relações (ou seriam “convenções”?) são tão institucionalizadas, como eram no meu tempo. A aproximação da menina, que era lenta e estratégica, agora, se dá em outra esfera: “Vamos dar uma ‘ficadinha’, gatinha?”. O ritual de “pedir a mão” foi solapado pelas novas tecnologias. Hoje, já não existem flores, as intermináveis conversas ou a aliança de prata (comprada em cinco vezes). Hoje, basta colocar no Facebook “fulano está em relacionamento sério”. Pronto! Sem dor, sem delongas, sem trauma. E detalhe: corre o risco de o “pai dela” nem ficar sabendo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Curitiba, 23h55 de 21 de março de 2011&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-8837993683003409155?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/8837993683003409155/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2011/03/tempos-modernos.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/8837993683003409155'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/8837993683003409155'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2011/03/tempos-modernos.html' title='Tempos Modernos'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-diCZ4SYVMcY/TYgQ7okaUpI/AAAAAAAAAss/wT7QEYW7JEk/s72-c/namorinho.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-1569896061967844500</id><published>2011-02-21T17:27:00.000-08:00</published><updated>2011-02-21T17:32:28.720-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>Por um instante</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-MvRU29hXwZc/TWMRaamgdjI/AAAAAAAAAsk/fwjxTWFqBl8/s1600/nascente.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5576319909129909810" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 238px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/-MvRU29hXwZc/TWMRaamgdjI/AAAAAAAAAsk/fwjxTWFqBl8/s320/nascente.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Os primeiros raios solares do dia tingiam o horizonte de um alaranjado preguiçoso. Virgílio, que passara a noite em claro, caminhava às margens do rio, em rumo contrário ao seu curso, absorto nos pensamentos puros que, involuntariamente, lhe afastavam o sono e lhe tiravam a fome. Há sete meses, treze dias e vinte e três horas, o amor – este anjo diáfano – tinha lhe tocado as faces com suas alvas asas. Tudo começou numa manhã de segunda-feira, quando Rosalva, a filha mais velha do coronel daquelas paragens, retornou à casa do pai, depois de concluir os estudos em um colégio de freiras na capital, se instalando inadvertidamente no coração do rapaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com sua simplicidade rústica e suave, Virgílio havia tocado a moça no primeiro instante. Tratou de conquistá-la diariamente em pequenos gestos e arrebatou definitivamente o coração da bela no momento em que teve a ousadia de fazer chegar-lhe uma camélia branca e uma carta escrita em letras sofríveis, mas as melhores que podiam sair daquelas mãos de trabalhador. Correspondido, dilacerava-se nos obstáculos que o destino lhe impunha, sobretudo pela lacuna social que separava os dois. Viver um amor furtivo e arriscar-se à provável míngua do depois? Não! Queria Rosalva para todo o sempre, nem que isso lhe custasse uma tira de couro das costas. Mas como, se ela era filha do coronel e ele, um homem sem sobrenome?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Virgílio já havia caminhado mais de uma légua, procurando respostas a suas angústias na natureza, nos animais ou nas crianças, que são os meios por onde Deus costuma revelar sua verdade às pessoas. Já próximo a nascente do rio, viu um menino – sete anos, no máximo – arqueado sobre as próprias pernas, com as mãos postas no nível da água, que lhe batia à altura dos tornozelos. Notou que o moleque, com a mão esquerda sobre a direita, pegava uma porção de água e, então, endireitava o corpo, trazendo as mãos para perto do rosto. Mas a água lhe escapava por entre os dedos e escorria-lhe pelos braços, em filetes estreitos. Impassível, o garoto tornava a se agachar e repetia o gesto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ei, menino! O que é que você está tentando fazer? – perguntou Virgílio, saindo detrás da moita de onde contemplava a cena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu ‘tô tentando pegar o rio, moço. – respondeu o menino, com um sorriso leve e cândido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amassando o chapéu em suas mãos, Virgílio se impressionou com a simplicidade e devoção do menino. Apesar da inocência pueril daquele intento, não podia deixar que o garotinho sofresse o impacto da desilusão, ao descobrir da forma mais crua – que é a realidade – que jamais poderia ter o rio só para si. Haveria de dissuadi-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Escute, menino. Não dá p’ra pegar o rio. A água é insistente e sabida. Ela escapa e vai correndo seu curso, se juntando a outras águas, até formar, lá embaixo, aquele riozão de meu Deus, que divide o Estado. Você até pode pegar o rio, mas vai ser só por uns dois segundinhos. – explicou Virgílio, no ar mais didático que pôde assumir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O moleque pausou, petrificado, num olhar impassível. Sentir que um sonho estava prestes a se diluir naquela água fez com que Virgílio virasse as costas e iniciasse o caminho de volta. No terceiro passo, no entanto, voltou-se para o menino e se surpreendeu ao ver que o garoto tornava a mergulhar as mãos em formato de concha, na expectativa de pegar o rio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Moço, o rio é tudo p’ra mim. E p’ra quem nunca teve nada, ter tudo, ainda que por um instantinho que seja, é muito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O coração de Virgílio bateu acelerado. Naquele momento, decidiu que viveria seu amor a qualquer custo. Só pensava em Rosalva.&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;Curitiba, fevereiro de 2011&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-1569896061967844500?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/1569896061967844500/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2011/02/por-um-instante.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/1569896061967844500'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/1569896061967844500'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2011/02/por-um-instante.html' title='Por um instante'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-MvRU29hXwZc/TWMRaamgdjI/AAAAAAAAAsk/fwjxTWFqBl8/s72-c/nascente.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-8575666273817084817</id><published>2010-12-20T15:43:00.000-08:00</published><updated>2010-12-20T15:58:05.556-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>Natal</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/TQ_qi-hVtOI/AAAAAAAAAsU/-Ddd9gjLHZs/s1600/papai%2Bnoel.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5552914752190395618" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 240px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/TQ_qi-hVtOI/AAAAAAAAAsU/-Ddd9gjLHZs/s320/papai%2Bnoel.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Os fios hirsutos caíam, um a um, sobre a pia do banheiro. Ante a brancura da louça, tornavam-se quase imperceptíveis. Pouco a pouco, Getúlio ia aparando a barba, que, apesar de espessa, tinha, à distância, aparência de ser suave como algodão-doce. Ao vê-la, assim, tão clara e volumosa, o primeiro ímpeto que sempre vinha-nos à cabeça era passar-lhe a mão pela superfície, como a conferir tactilmente a maciez. À longa barba, olhos que se apresentavam sempre vivos e loquazes davam àquele senhor um ar afável e bonachão: qualidades que foram determinantes para que conseguisse um emprego de Papai Noel, em um pequeno centro comercial popular, ao lado do terminal de ônibus do bairro, no finzinho daquele ano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teria de fazer alguns esforços, dentre os quais, o principal seria deixar Arthur, seu netinho de cinco anos aos cuidados de Geni, uma matrona de cuja casa fazia fundos com a sua. O menino haveria de entender, pensava Getúlio, com seus botões, afinal era para ele que se sacrificaria naquela roupa vermelha, de um tecido sintético ordinário e brilhante, com botas de cano alto e cinturão de couro a lhe completar o visual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No ano passado, o avô não pode satisfazer o desejo do netinho – uma bicicleta –, que chegou escrever duas cartinhas ao Papai Noel, na certeza de que seria atendido, afinal tinha sido um bom menino o ano inteiro. Quando amanheceu o 25 de dezembro, a bicicleta não estava embaixo do pinheirinho improvisado por Getúlio, no canto da sala. Arthur meteu-se o dia todo embaixo da cama. Não entendia o que havia acontecido. Não havia se comportado a contento? Ou o bom velhinho se esquecera dele?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, o Papai Noel não se esquece de ninguém. – resmungou o menino, num muxoxo aborrecido, como querendo se convencer das palavras que acabara de dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na ocasião, Getúlio não soube que desculpa inventar nem o que dizer ao neto. Não podia simplesmente dizer que Papai Noel não existe e que o dinheiro da bicicleta havia sido gasto com remédios para pressão. Engoliu o choro preso na garganta (“fica-se emotivo depois de velho”, pensava) e, diariamente, passou a prometer a si mesmo que Arthurzinho teria sua bicicleta e que jamais teria um acontecimento como aquele a vilipendiar sua inocência infantil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele vai crer no Natal! – declarou para si mesmo o velho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentado ao trono no corredor principal do shopping popular, Getúlio suava por debaixo daquela indumentária estranha. O algodão das mangas e golas da roupa pinicavam-lhe o corpo, fazendo com a pele ficasse vermelha. Tentava ostentar seu melhor sorriso e fingir que cada criança que se sentava em seu colo era o seu neto. Bastava pensar em Arthur para recobrar forças e seguir adiante. Quando imaginava o menino pedalando sua bicicleta pelo quintal, até sorria e chegava a emitir o “hou, hou, hou” característico dos papais-noeis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era por volta das quatro da tarde, quando dona Geni entrou no centro comercial, levando os dois filhos menores e Arthurzinho. Fascinados, os meninos se soltaram da mão da senhora e cercaram, extasiados, o Papai Noel. Getúlio se empertigou, tentando assumir o ar mais natural naquela fantasia, e abriu os braços para os garotos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arthur foi o que chegou primeiro. Atirou-se no colo daquele velhinho, mas quando tocou a barba branca caiu em si. Aquele não era Papai Noel, era o seu avô. Tirou a mão do rosto de Getulio em um gesto ríspido, como se aquele contato lhe houvesse causado náuseas. Os olhos do menino marejaram. Arthur correu por um dos corredores, num pranto alto e dolorido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O Papai Noel não existe! – sentenciava aos berros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em um movimento lento e trágico, Getúlio tirou o gorro. O velho também chorava, mas não drasticamente, como fazia Arthur: apenas um filete de lágrima escorria por cada um dos olhos. Pela segunda vez, involuntariamente, havia esfacelado os sonhos do neto.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Curitiba, 20 de dezembro de 2010 - 21h44&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;em&gt;foto: Marcus Mesquita (&lt;a href="http://www.olhares.com/"&gt;http://www.olhares.com/&lt;/a&gt;)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-8575666273817084817?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/8575666273817084817/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/12/natal.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/8575666273817084817'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/8575666273817084817'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/12/natal.html' title='Natal'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/TQ_qi-hVtOI/AAAAAAAAAsU/-Ddd9gjLHZs/s72-c/papai%2Bnoel.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-5891056346730889978</id><published>2010-11-09T08:41:00.000-08:00</published><updated>2010-11-09T11:22:56.124-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>Deportado</title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/TNl8AmkdR6I/AAAAAAAAAsI/Mo9ntGapRdc/s1600/deportado.bmp"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5537593566624040866" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 240px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/TNl8AmkdR6I/AAAAAAAAAsI/Mo9ntGapRdc/s320/deportado.bmp" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;I'm lonely in London, London is lovely so&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;London, London&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt; (Caetano Veloso)&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;Pede perdão pela duração&lt;br /&gt;Dessa temporada&lt;br /&gt;Mas não diga nada&lt;br /&gt;Que me viu chorando&lt;br /&gt;E pr'os da pesada&lt;br /&gt;Diz que eu vou levando...&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Samba de Orly&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt; (Chico Buarque/ Vinícius de Moraes/ Toquinho)&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;Poeira e um coração&lt;br /&gt;Que anda sem direção&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Poeira&lt;br /&gt;(Flávio Mantovani/ Felippe Aníbal/ Kleber Godoy)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;O rapaz de cabelos longos e barba por fazer descia o sexto degrau que dá acesso a um dos dezenas de pubs daquele bairro de Londres. Brasileiro, crescera ao som de Beatles ou de bandas que foram drasticamente influenciadas pelo histórico quarteto de Liverpool. Dizia-se que no pequeno palco, ao fundo do estabelecimento, John e Paul ecoaram os primeiros acordes de sua duradoura parceria. Um pub histórico, com certeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, o jovem latino-americano balançava a cabeça, afastando os vestígios de sonho. Cochilara naquela sala impessoal do aeroporto londrino, onde funciona uma divisão da UK Border (uma agência federal que regula a entra de estrangeiros). Havia sido conduzido àquele espaço após desembarcar, quase duas horas atrás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percebeu que teria problemas logo depois de descer do avião, quando, ao passar pelo guichê da agência, notou o movimento da sobrancelha da senhora sexagenária, agente da UK Border. Discreta e com a amabilidade artificial dos britânicos, a velha fez-lhe algumas perguntas banais. Por fim, surgiu um homem esguio e alto, metido em um terno preto, e o acompanhou à saleta, onde jazia naquele instante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que diabos lhe submetiam àquele infortúnio? Seria pelos cabelos que pendiam à altura dos ombros ou pela barba mal feita? Talvez fosse pelos coturnos gastos e pela mochila camuflada, que lhe davam um aspecto militaresco, como se fora um guerrilheiro da década de 70. Ou não. Talvez houvesse uma cota de deportações a ser cumprida. Ou ainda, podia ser que a amável senhora simplesmente não tenha ido com suas fuças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um outro senhor interrompeu-lhe quando pegava um segundo copo de café em uma máquina, ao canto da sala. Foi conduzido a um anexo, onde uma intérprete também discretamente vestida e com os cabelos presos num coque o aguardava. Foi sabatinado por longos três quartos de hora, em um interrogatório sem nexo e que, por vezes, lembrava a visita do recenseador do IBGE.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De volta à saleta de espera, serviu-se novamente de café (era aquilo, ou água), enquanto perdia-se em pensamentos acerca das hipocrisias e preconceitos que alavancavam injustiças e atrocidades de toda sorte, desde que o mundo é mundo. Não fora sentimentos como este que fomentaram a execução de milhares de judeus sobre a égide do Nazismo e que serviu de pretexto para a Segunda Guerra? Não é este tipo de absurdo que está intimamente relacionado ao massacre de palestinos? Não foi essa conduta que deu margem à intervenção estadunidense no Oriente, propiciando a reação “terrorista” no 11 de setembro? Não havia sido assim com Jean Charles de Menezes?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soltou um sussurro de lamento. Os métodos todos para se aferir o caráter das pessoas eram superficiais, exteriores e falhos. Óbvio: muito mais fácil exercer o controle sobre uma massa homogeneizada. Quantos Jeans Charles mais seriam necessários?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sou apenas mais um... – concluiu em voz alta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em uma voz metálica, o piloto avisava que já podiam soltar os cintos de segurança. Em sua poltrona, ao lado da janela, o rapaz voava novamente em direção ao Brasil, sem ter posto o pé para fora do aeroporto, e depois de seis horas de constrangimentos, até sua entrada oficial na Inglaterra ter sido negada. Tentava ver o Atlântico, lembrando de tudo que havia deixado em além-mar, antes de conhecer (as ruas, a cultura, as pessoas e personagens).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fundo, naquele instante, lamentava-se de ter optado por iniciar sua jornada pela Europa. Pensava em sua gente, suas raízes e sua história. Aquele incidente que acabara de viver deixariam marcas que não se apagariam facilmente. Mas jamais deixaria que essas cicatrizes lhe impedissem de conhecer o mundo e de sangrar pelas estradas. Continuaria a fazer seu caminho. Mas desta vez, se encontraria ao se perder nas artérias do coração da América Latina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;em&gt;Para o meu amigo e irmão Flávio Mantovani&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;em&gt;(Curitiba, 9/11/2010, 14h42)&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-5891056346730889978?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/5891056346730889978/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/11/deportado.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/5891056346730889978'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/5891056346730889978'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/11/deportado.html' title='Deportado'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/TNl8AmkdR6I/AAAAAAAAAsI/Mo9ntGapRdc/s72-c/deportado.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-1942370319973366383</id><published>2010-09-22T18:40:00.000-07:00</published><updated>2010-09-22T18:51:46.609-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>Quatro sentidos</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/TJqybvhR3dI/AAAAAAAAAr4/0yQaxfAqapc/s1600/blind1.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5519920482978225618" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 126px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/TJqybvhR3dI/AAAAAAAAAr4/0yQaxfAqapc/s320/blind1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;O movimento era ritmado. Repetitivo. Em um zigue-zague compassado, a bengala de metal tocava a calçada de pedras portuguesas, ora à direita, ora à esquerda, produzindo um som contínuo, quase irritante. Mas era por meio deste contato táctil que Jesualdo passou a enxergar, depois que uma doença degenerativa agravada pelo diabetes escureceu suas vistas, dois anos atrás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No principio, revoltou-se diante das trevas. O véu negro que recobria os olhos de Jesualdo impedia-lhe de ver a poesia escondida nos mínimos detalhes do dia. Não havia o horizonte sangrando ao pôr-do-sol, nem as flores dos ipês que se derramavam em tapetes coloridos ou os batons vermelhos-vivos das senhoritas do passeio público.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco a pouco, no entanto, os outros sentidos se aguçaram e pareciam compensar a falta da visão. Jesualdo percebia o mundo ao seu redor pelos sons, cheiros e sabores. Enxergava pelo toque das mãos. Com o passar do tempo, tornou-se independente. Era capaz de fazer tudo sozinho: barbear-se impecavelmente, vestir-se com esmero e arrumar sua casa, com cada coisa em seu devido lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Metódico, criou uma rotina, que cumpria meticulosamente todos os dias. A escala incluía um passeio de uma hora pelo calçadão do centro da cidade, em que sua bengala zigue-zagueava, mostrando-lhe o caminho. Foi num desses volteios ao cair da tarde que uma voz se lhe precipitou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Posso te ajudar, moço?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jesualdo pensou em se ofender, mas a clareza e a feminilidade com que aquela voz lhe soou tolheram seu ímpeto inicial. Como o rapaz se paralisara sem esboçar qualquer reação, a dona da voz insistiu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Segure no meu braço direito. Eu te guiarei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pele da mulher era morna e de uma maciez acalentadora. Com o anular, Jesualdo pode sentir que ela tinha uma pequena pinta, próximo ao cotovelo. De quando em quando, a pretexto de apoiar-se melhor, ele pousava a mão sobre o ombro de sua guia, para deslizar novamente até a dobra do braço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não lhe perguntou para onde ele queria ir. Também Jesualdo não mencionou qualquer destino. Apenas caminhavam suavemente sobre as pedras portuguesas do calçadão, enquanto ela lhe descrevia em uma voz quase musical as cenas daquela terça-feira: um menino negro que engraxava os sapatos de um velho de boina, uma criança que corria atrás de pombas, duas adolescentes de piercings que andavam de mãos dadas, uma mulher que se apressava para tomar o ônibus...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com esforço, Jesualdo desviou sua atenção para o som das passadas da moça e, pelo barulho, percebeu que ela usava sapatos de salto. Os passos eram firmes e decididos: devia ser alta. Certamente estaria vestida com discrição, mas com toques de elegância casual. Em variações de cinza, talvez. Ou quem sabe, um &lt;em&gt;tailler&lt;/em&gt; xadrez leve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O perfume da mulher era suave, de uma fragrância que tinha leves tons de sândalo. Talvez tivesse se banhado a menos de uma hora e passado leite de rosas pelo corpo. Quando passeavam perto de uma floreira, o cheiro dela se misturou ao dos jasmins que vertiam dos canteiros, fazendo com que Jesualdo se lembrasse das manhãs de Primavera de sua infância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando Jesualdo deu por si, estava em casa e penetrava sinestesicamente aquela mulher que lhe propiciava torrentes de sentimentos difusos, mas que se convergiam em uma única direção. Sentia cada milímetro, cada átomo daquela pele. Deleitava-se com os sussurros e gemidos lascivos que ela deixava escapar em ápices de prazer. Inebriava-se com o cheiro natural que ela exalava, ao suar nua em seus braços. Mergulhava em seu gosto cru, nu e real. Ela era quem ele quisesse que ela fosse. Tinha a forma, a cor e o aspecto que ele bem entendesse. Naquela tarde, Jesualdo foi feliz. Por todos os sentidos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Curitiba, 21 de setembro de 2010 – 20h13&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-1942370319973366383?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/1942370319973366383/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/09/quatro-sentidos.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/1942370319973366383'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/1942370319973366383'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/09/quatro-sentidos.html' title='Quatro sentidos'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/TJqybvhR3dI/AAAAAAAAAr4/0yQaxfAqapc/s72-c/blind1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-434109967769951098</id><published>2010-08-30T18:43:00.000-07:00</published><updated>2010-08-30T18:51:38.924-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>Renascimento</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/THxfjVf0d2I/AAAAAAAAArY/47NP5FOG_2E/s1600/SDC11542.JPG"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5511385104665311074" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 179px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/THxfjVf0d2I/AAAAAAAAArY/47NP5FOG_2E/s320/SDC11542.JPG" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Eu sou um bunda mole! – exclamou Osvaldo, para si mesmo, ao chegar naquela festa de república universitária, em uma noite estrelada de primavera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentia-se um estranho naquele universo, que tanto diferia de seu mundinho seguro. No terceiro ano de faculdade – em que cursava Comunicação Social – jamais lera Baudrillard ou Horkheimer, ignorava a essência do pensamento de Umberto Eco ou de Adorno, e não se interessava pela realidade estudantil: não participara das manifestações pela moradia universitária nem pelo movimento do passe livre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Preferia a realidade amena de Liliana, a colega de sala a quem começou a namorar quando ainda era calouro. Entregava-se a um cotidiano de futilidades efêmeras: almoços em shoppings, novelas, filmes hollywoodianos, músicas de rádio FM,... rotina. Tudo morno, com cada coisa em seu devido lugar. Sem perceber, acabou por ser dominado pela namorada e passou a viver a vida dela. E agora, que a moça havia decidido “pedir um tempo”, Osvaldo, que estava com a vida em suas próprias mãos, se perguntava o que faria com ela. Como não cunhou sua própria identidade, ao perceber-se sozinho, sentiu medo. “Definitivamente, sou um merda!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À rua em frente da casa onde a festa acontecia, dezenas de pequenos grupos de universitários conversavam, riam, bebiam... viviam aquela noite com intensidade. Ninguém reparou que Osvaldo calçava seu tênis importado com sistema de amortecimento e que vestia aquela calça de marca caríssima, ou que ele havia passado gel nos cabelos. “Povinho estranho! Barbudos, bichos-grilo, desqualificados,...”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Decidiu entrar na república. Acordes dissonantes de um rock que ele não conhecia pairavam na atmosfera, executados toscamente por uma banda de garotos que vestiam jeans surrados. Posters de bandas, cones de trânsito, artigos artesanais e esboços de obras de arte malucas faziam parte da decoração e pareciam se encaixar hermeticamente àquela festa, em que as pessoas pareciam sorver a vida por todos os poros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Osvaldo chegou à garagem, onde funcionava uma espécie de bar improvisado. Não sabia porque, mas ele – que só tomava isotônicos recomendados pelo seu &lt;em&gt;personal trainner&lt;/em&gt; – decidiu beber. Começou com uma cerveja e, em seguida, mandou uma vodca com limão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, foi como se a vida começasse a lhe fazer mais sentido. Por entre resquícios de fumaça que se dissipavam à porta, materializou-se uma imagem que lhe fez se sentir mais pertencente ao Universo. Ela – a mulher – vinha em um indelével vestido preto, que lhe caía perfeitamente. Cabelos negros presos no alto da cabeça, em contraste à cútis alva e que, contraditoriamente, se harmonizava a todo o conjunto. Olhos meigos e um sorriso doce decretavam &lt;em&gt;grand finale&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A moça se pronunciou diante de Osvaldo com naturalidade. Passou-lhe a mão levemente pelos cabelos e sorriu silenciosamente. O rapaz gaguejou e as pernas, de súbito, lhe falharam. Fez um gesto com o indicador, pedindo mais uma dose: pinga de anis, desta vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Osvaldo sentia o álcool correr seu sangue, contribuindo para acelerar a sensação de torpor que lhe subia à face. Vinha-lhe à mente zilhões de coisas para conversar com aquela mulher, mas as palavras se enroscavam em sua boca e quando faziam menção de sair, a bela jovem pousava o indicador sobre os lábios, cobrando-lhe silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com brilho no olhar, o rapaz sorveu outra vodca, depois um uísque barato, seguido de outra cerveja e mais uma vodca. A cada gole, seus batimentos cardíacos se aceleravam e tinha a sensação de que o mundo dançava dentro de si.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, aquela mulher se aproximou lentamente. Com graça, inclinou levemente o corpo em direção a ele. Primeiramente, respirou próximo à orelha esquerda de Osvaldo para, em seguida, deslizar suavemente a boca pelo pescoço do jovem, que inebriado, tremia. O gesto terminou em um beijo demorado, em que a língua daquela figura misteriosa explorou a boca do rapaz, como a lhe sugar a alma, a existência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O corpo de Osvaldo foi encontrado às cinco da madrugada, ao fim da festa, caído em decúbito ventral, em um canto da garagem. “Coma alcoólica”, todos disseram. “Não era acostumado a beber”. Osvaldo finalmente estava livre de seu mundo de pequenez. Osvaldo, na verdade, foi um privilegiado. Não é a todos que a Morte se apresenta como uma bela mulher. Não são todos que entram para a eternidade com um beijo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;Curitiba – 30/08/2010 – 22h41&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-434109967769951098?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/434109967769951098/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/08/renascimento.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/434109967769951098'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/434109967769951098'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/08/renascimento.html' title='Renascimento'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/THxfjVf0d2I/AAAAAAAAArY/47NP5FOG_2E/s72-c/SDC11542.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-14291385122436127</id><published>2010-07-05T13:39:00.000-07:00</published><updated>2010-07-05T13:46:53.433-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='causos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>Ritinha</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/TDJElZ--BVI/AAAAAAAAArE/SsBUC03COlI/s1600/foto+antiga1.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5490526305138902354" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 145px; CURSOR: hand; HEIGHT: 179px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/TDJElZ--BVI/AAAAAAAAArE/SsBUC03COlI/s320/foto+antiga1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Enfim, Inês recolhia-se após um longo e exaustivo dia de trabalho. Sempre que a comitiva do governador vinha à sede da companhia energética, no interior do estado, o expediente era mais puxado. Cozinhar para todos aqueles figurões, tomando cuidado para adequar o cardápio ao gosto de todos e não desagradar a ninguém. Paneladas e paneladas do melhor da comida caseira. Com seu feijão bem temperado e de caldo grosso, a jovem cozinheira arrancava elogios de todos. Não havia ministro ou secretário de estado que ficasse impassível diante da iguaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, a mulher acomodava-se sob os cobertores, ao lado de seu marido, Antonio. Com elegância e discrição, ornamentada pelos bigodes bem aparados, o garçom preferido do governador havia, mais uma vez, servido as autoridades à comprida mesa do salão de jantar. Findo o labor, ele repousava o sono dos justos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele quarto, no andar superior do sobrado, Inês custava a dormir. Ouvia conversas e o som seco de passos na escadaria de madeira. Rolou na cama e tentou cobrir a cabeça, mas o barulho continuava a lhe incomodar. Além dos passos, as únicas coisas que conseguia discernir daquele palavrório, eram uma voz chamando pelo nome de “Ritinha” e um riso agudo de criança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ruído dos passos aumentaram. De repente, Inês viu a maçaneta da porta girar e um senhor distinto, de barba negra e usando chapéu panamá, pôr a cabeça dentro do quarto. O homem olhou calmamente o interior do aposento, fitou a jovem e, antes de se retirar, despediu-se com um aceno de cabeça e um leve sorriso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Antonio! Você não trancou a porta? Viu só? Um homem quase entrou aqui. – disse Inês.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que homem, Inês? Não vi ninguém... – balbuciou o marido, voltando a dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A balbúrdia continuou ao longo de toda a madrugada e não deixou que Inês dormisse. Quando estava prestes a pregar os olhos, ouvia alguém chamar pela tal “Ritinha”, despertando-lhe novamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às seis e meia da manhã, Inês pôs-se de pé. Aprontou-se rapidamente e desceu pela longa escadaria de madeira. No saguão, Luiz concentrava-se em sua leitura, alumiada por um candeeiro. A mulher interpelou-o, querendo saber que barulheira fora aquela, que não havia lhe deixado dormir a noite toda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Barulheira? Passei a noite lendo aqui no saguão e não ouvi nada, Inês. Por aqui, não passou viva alma. – assegurou o funcionário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não é possível, seu Luiz. Eu ouvi. Um homem com chapéu panamá chegou a pôr a cara dentro do meu quarto. Ouvi conversas a noite inteira. Chamavam uma tal de Ritinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando Inês descreveu o homem que quase havia entrado no aposento e mencionou o nome da menina, Luiz empalideceu, engolindo seco. Tremulamente, deixou o livro sobre a mesinha de centro foi até uma estante e pegou um álbum de fotografias, grosso e de capa de couro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pôs a encadernação sobre o balcão e começou a folheá-la, lentamente, com semblante de espanto. Ao virar a terceira página, Inês apontou a figura retratada à esquerda da fotografia: o senhor de barba e chapéu panamá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Aqui! Foi este homem que abriu a porta do meu quarto! – disse a mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não me diga isso, Inês! – espantou-se o moço. Essas pessoas eram os antigos donos desta terra. Foram assassinados há muitos e muitos anos, em brigas pela posse. Ritinha era a filha mais nova da família e tinha quatro anos quando foi morta – completou Luiz, indicando uma menininha de vestido de cor clara, que estava à direita da fotografia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rezaram uma Ave-Maria e um Padre-Nosso pelas almas e nunca mais tocaram no assunto.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;Curitiba – 05/07/2010 – 17h09&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Causo originalmente contado pela avó Inês&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-14291385122436127?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/14291385122436127/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/07/ritinha.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/14291385122436127'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/14291385122436127'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/07/ritinha.html' title='Ritinha'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/TDJElZ--BVI/AAAAAAAAArE/SsBUC03COlI/s72-c/foto+antiga1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-3199638709512229098</id><published>2010-06-27T10:33:00.000-07:00</published><updated>2010-06-27T10:52:31.560-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pessoais'/><title type='text'>A menina dos olhos</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/TCeMjSXrCpI/AAAAAAAAAqU/fJSRrLqC7Sg/s1600/fontana-di-trevi2.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5487509208828676754" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 240px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/TCeMjSXrCpI/AAAAAAAAAqU/fJSRrLqC7Sg/s320/fontana-di-trevi2.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;“Quero desejar, antes do fim,&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Pra mim e os meus amigos,&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Muito amor e tudo mais;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Que fiquem sempre jovens&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;E tenham as mãos limpas&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;em&gt;E aprendam o delírio com coisas reais”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Antes do Fim (Belchior)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;A primeira vez que a vi, ela estava sentada em um gramado, sob o sol de uma segunda-feira de verão. Usava bermuda jeans, camiseta sem mangas e um All Star vermelho e, com os olhos mansos, ouvia o que lhe dizia uma nova colega. A moça – magra, alta e esbelta – era da minha turma da faculdade, mas só fui conversar com ela tempos depois, em uma noite fria de junho. Na sala do apartamento, onde comemorávamos o aniversário de alguém, falamo-nos pela primeira vez. The Doors foi o tema de nossa conversa. Já não posso precisar detalhes do diálogo, mas lembro-me dela, entre uma caipirinha de vodca e outra, me contar sobre o filme da banda, que eu “tinha que assistir”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela passou a fazer parte de minha vida de forma concreta e marcante. Lembro-me da postura ereta com que se sentava com as pernas cruzadas, e da maneira com que se concentrava ao ter um livro aberto em suas mãos. Quando sorria, nem seria preciso que seus lábios desenhassem um leve arco, mostrando os dentes perfeitamente alinhados: ela sorria pelos olhos. Olhos misteriosos. De ressaca? De cigana dissimulada? Perdida, distante ou perto demais?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Movia-se com poesia. Movimentos lentos, quase lânguidos, contrastando com a perspicácia de seus pensamentos, que sempre captavam tudo ao redor. De quando em quando, sempre que meu olhar se tornava vago, era surpreendido por ela:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Está pensando em quê, Pira?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma vez, ela apareceu com um vinil do Belchior. “Alucinação”. O disco tinha uma pequena avaria na borda, mas tocou perfeitamente no meu aparelho de som. Ouvimos música por música, deitados em minha cama, olhando para o teto. Nos intervalos, fazíamos um comentário qualquer, enquanto a tarde nos cobria com seu manto, como se fôssemos ter vinte e poucos anos para sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos almoços de domingo, sentava-se em uma cadeira de praia e acendia um incenso. Em paz, eu podia vasculhar sua coleção de discos ou me perder nas abstrações dos quadros pintados pela mãe dela e que ornamentavam o apartamento. Eu gostava dos objetos de decoração e dos detalhes. Admirava-me a maneira franca com que ela concordava ou discordava do que quer que fosse. Divertia-me com a facilidade que ela tinha de esquecer de momentos importantes e de se lembrar de outros dos quais ninguém mais fazia conta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinto falta da suavidade de sua presença, como quando tomamos cervejas em um bar nordestino de São Paulo ou de quando ela nos chamava para assistir comédias italianas em sua república. Sinto falta de quando ela falava que o Universo nos surpreende sempre e que Ele é do tamanho que queremos. Sinto falta de ela vomitando sobre mim as verdades que eu não queria ouvir, mas que são as que sempre me fizeram seguir adiante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela voou. O Universo dela não tinha e não tem limites. Ela luta por suas convicções, com as vitórias e os revezes que lhe aparecerão. Agora, ela “calçou a bota” (como tantas vezes nos referimos, brincando) e caminha pelas ruas centenárias de Roma. Seus olhos mansos e misteriosos se deleitam com a beleza colossal da Basílica de San Pietro (“É inexplicável! A maior obra de arte que o homem já fez!”) ou em passeios pela Fontana de Trevi, que viu em “La dolce vita”, de Fellini. Aos finais de semana, pode ainda se perder pelos corredores do Museu do Vaticano, que “tem tudo o que você imaginar da História Ocidental”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha amiga foi correr seus riscos e viver sua vontade. Caso algo lhe aborreça, tenho a certeza de que voltará, como quem atravessa a rua para chegar em casa. Mesmo do outro lado do oceano, sinto-a cotidianamente e procuro sempre absorver a sabedoria singela daqueles olhos mansos e misteriosos. Em silêncio, desejo-lhe toda sorte do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Curitiba – 23/06/2010 – 21h37&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-3199638709512229098?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/3199638709512229098/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/06/menina-dos-olhos.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/3199638709512229098'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/3199638709512229098'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/06/menina-dos-olhos.html' title='A menina dos olhos'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/TCeMjSXrCpI/AAAAAAAAAqU/fJSRrLqC7Sg/s72-c/fontana-di-trevi2.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-1740222615014391598</id><published>2010-06-16T05:20:00.000-07:00</published><updated>2010-06-16T05:40:10.759-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pessoais'/><title type='text'>13 de junho</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/TBjDioCMjyI/AAAAAAAAAqM/s0keCATkzHM/s1600/ampulheta.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5483347545953177378" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 238px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/TBjDioCMjyI/AAAAAAAAAqM/s0keCATkzHM/s320/ampulheta.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;em&gt;“Há tempo, muito tempo, que eu estou longe de casa&lt;br /&gt;E nessas ilhas cheias de distância&lt;br /&gt;O meu blusão de couro se estragou”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Tudo Outra Vez (Belchior)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;em&gt;“Eu que não me sento&lt;br /&gt;No trono de um apartamento,&lt;br /&gt;Com a boca escancarada cheia de dentes,&lt;br /&gt;Esperando a morte chegar”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Ouro de Tolo (Raul Seixas)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Faz dois anos. O dia amanhecia com um sol brando e agradável. Mas era uma sexta-feira, 13. Diante da data de mau agouro, perguntei a opinião de minha mãe, que me levava à rodoviária, onde eu embarcaria em uma nova vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pense que dia 13 é dia de Santo Antonio. E seu avô Antonio está lá em cima, olhando por você. – disse-me ela, dando-me um beijo no rosto e me abraçando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vô Antonio era a personificação da bondade. Foi-se embora cedo, como todos os bons. Talvez aquele velhinho de bigodinhos finos seja a única pessoa que não foi “doutor”, político ou cafeicultor, a emprestar seu nome a uma rua de Piraju. Jamais serei como Vô Antonio. “Misturou o sangue dos Aníbal com o dos Cerqueira... vai prestar de que jeito?”, diria meu pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parti sem olhar para trás. Na mala, a coragem e a fé daqueles que sonham e que não temem a vida. Na Avenida Paulista, um sanfoneiro sorridente que tocava “João e Maria” me fez sentir que a mesma megalópole cinzenta e avassaladora também poderia ser uma São Paulo cheia de poesia e de sutilezas. Da lotação claustrofóbica dos metrôs ao jazz do Piratininga. Do ar pesado e poluído às belas construções do Centro Velho. Dos semblantes apressados às longas tardes de domingo nas feiras de artesanato. Do trânsito caótico aos parques escondidos que insistiam em brotar no concreto (“da força da grana que ergue e destroi coisas belas”). Dos painéis da Bolsa de Valores aos beijos doces no fim da noite. Tudo dependia de como víamos a vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Belchior passou a me fazer mais sentido. Nos ônibus amontoados, uma infinidade de herois sem rosto, lutando contra todos os prognósticos negativos que a vida havia lhes imposto. Nos assentos, eu puxava conversa com quem se sentava ao meu lado. Nos quarenta minutos de trajeto, contavam-me suas vidas, para depois passarem pela porta da lotação e desaparecerem para mais uma peleja diária. Foram tantas as histórias. Tantos rostos. Tantas pessoas se dilacerando para vencer esteriótipos e preconcentos contra os que moram na periferia, apesar de toda a dignidade que carregam consigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas já faz dois anos e os sonhos foram gastos pelos quilômetros percorridos. Meus lábios se partem com o frio e quando tento cantar ouço o eco da minha alma, diante do vazio e da solidão que me acompanham. Saudade de andar com os pés descalços pelos paralelepípedos das ladeiras de Piraju. Saudade dos “bom dia” e das faces familiares. Saudade de cantar uma canção conhecida e de beijar meus amigos no rosto. Saudade de não ser mais um em uma multidão, que sequer me olha na cara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas já faz dois anos e trago na pele e no espírito cicatrizes (e quem não as tem?). Faz dois anos! Quantos mais serão precisos para perceber que areia escorre pela ampulheta, enquanto a vida se esvai por entre nossos dedos? O eterno esperar não faz sentido, como telenovela em que todos já sabem o final, mas assistem compenetrados. A passividade não faz sentido. Então, qual é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já faz dois anos e a vida pode acabar amanhã. Pode ser em um ônibus desgovernado no centro da cidade que atropela trinta e duas pessoas, em uma série de tiros disparados por engano em minha direção, em um ataque fulminante, ou, quem sabe, em uma doença incurável. Morrer não tem graça, mas esperar pelo fim é ainda mais absurdo, embora a vida nos pregue peças de mau gosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já faz dois anos. Meu caminho é de poeira e a única finalidade do meu coração é pulsar noventa vezes por minuto. Permaneço no mesmo insosso lugar, enquanto o mundo é vasto, mundo. Por que? O caminho é construído a medida em que os passos se sucedem. Qual o sentido da vida, senão procurar sentido na vida? Almas que se desbotaram ao sol ou pelo medo do escuro? Por que as pessoas insistem em titubear diante da felicidade? Já faz dois anos e é preciso seguir adiante. Para onde? Não importa...&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Curitiba, 13 de junho de 2010 – 22h31 &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-1740222615014391598?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/1740222615014391598/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/06/13-de-junho.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/1740222615014391598'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/1740222615014391598'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/06/13-de-junho.html' title='13 de junho'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/TBjDioCMjyI/AAAAAAAAAqM/s0keCATkzHM/s72-c/ampulheta.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-6319120800800819866</id><published>2010-06-13T10:36:00.000-07:00</published><updated>2010-06-13T11:23:11.301-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>Suicídio</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/TBUYPGA3PoI/AAAAAAAAAqE/VLVZ4iDNrO0/s1600/revolver.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5482314768984784514" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 234px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/TBUYPGA3PoI/AAAAAAAAAqE/VLVZ4iDNrO0/s320/revolver.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;em&gt;Socorro!&lt;br /&gt;Não estou sentindo nada&lt;br /&gt;Nem medo, nem calor, nem fogo&lt;br /&gt;Não vai dar mais pra chorar&lt;br /&gt;Nem pra rir...&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Socorro &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;(Arnaldo Antunes/Alice Ruiz)&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;Baby, a vida já não faz falta&lt;br /&gt;A chuva está rala&lt;br /&gt;E o sol aparece entre as nuvens&lt;br /&gt;A minha voz ‘tá roca&lt;br /&gt;A minha ideologia louca&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Suicídio &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;(Cazuza)&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;E a dor é menor do que parece&lt;br /&gt;Quando ela se corta ela se esquece&lt;br /&gt;Que é impossível ter da vida calma e força&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Clarisse &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;(Renato Russo)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Rosana viu seus olhos refletidos no espelho. Não eram olhos que denotavam tristeza, melancolia ou dor. Aqueles dois pontos negros pareciam desprovidos de qualquer tipo de sentimento. Eram a tradução exata do que havia se tornado sua vida: um nada! Ausência de sabor, cor, cheiro, som e gosto. Subsistia..., mas para quê? Constantemente, refazia esse questionamento a si mesma, sem chegar a nenhuma conclusão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apoiou-se no mármore da pia e abriu a torneira. Deixou a água jorrar por alguns segundos sobre a sua nuca, na expectativa de aquilo levasse as impurezas de sua alma ralo abaixo e que lhe recobrasse qualquer sentido para o que chamavam de vida. Nada! Se ao menos tivesse vontade de chorar... mas nem isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não havia motivos para protelar ainda mais esse “nada”. Estava morta havia tempos. Se suas funções fisiológicas vitais estavam em pleno vigor, o mesmo não podia se dizer de sua alma, em frangalhos e dilacerada desde que “entregou os pontos”. Melhor seria decretar logo o fim e acabar de uma vez por todas com esse infortúnio chamado vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abriu a primeira gaveta da pia e pegou uma lâmina. Não seria um crime contra a vida o que estaria a fazer, posto que já estava morta. Para os antigos samurais, era algo nobre se matar diante de um fracasso. O seppuku – nome dado ao suicídio desses guerreiros – era uma forma de expiação pelos erros cometidos e como sinal de força e coragem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas era por covardia que Rosana queria abreviar seus dias. Por falta de vontade lutar. Lembrou-se de que seu nome deriva da palavra Hosana, que em hebraico quer dizer “salva-me, por favor”. Mas Rosana foi incapaz de salvar-se, de se manter na vida. Por isso, agora, lanhava seu pulso esquerdo na expectativa de encontrar a Morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sangue vertia com facilidade. Mas abandonou o método. Pensou no impacto que seria a quem encontrasse seu corpo frágil todo retalhado e embanhado em uma poça vermelha. O corte fora superficial. Não havia dor. Apenas um filete de sangue que pingava do seu pulso, tingindo a porcelana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi até o quarto e voltou com um revólver que pertenceu a seu pai – artigo de colecionador. Abriu o tambor e constatou que havia três cápsulas intactas. Apenas uma seria necessária para executar o que planejava. Tateou levemente a arma, cromada e polida, pensando em quantos já se foram da mesma maneira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhou novamente para o espelho e se lembrou de Kurt Cobain, que, antes de se suicidar, se fotografou, posando com o revólver apontando contra si mesmo. Por um instante, se divertiu imitando o rockeiro suicida. Entretanto, pôs-se a pensar em qual seria a melhor maneira de terminar o serviço. Ponderou que se disparasse a arma contra o peito, poderia errar o coração e continuar viva. A melhor maneira seria apoiar o cano do revólver contra a base do queixo e atirar. A bala atravessaria seu rosto, de baixo para cima, rasgando seu cérebro. Seria um fim rápido e indolor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentiu o frio da arma tocar sua pele. Olhou no espelho e se assegurou que a posição estava correta para o tiro fatal. Começou a pressionar o gatilho e engoliu seco. Seu dedo parou. Até para isso, era covarde. Lentamente, depositou o revólver sobre a pia e sacudiu a cabeça. Lá fora, a cidade pintada de verde e amarelo se ensandecia ao som das vuvuzelas: Copa do Mundo. O maior castigo para si mesma seria continuar viva, misturando a sua mediocridade à mediocridade do mundo. Seria uma alma em frangalhos a vagar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;em&gt;Curitiba, 13 de junho de 2010 - 14h42&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span 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style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-6319120800800819866?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/6319120800800819866/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/06/suicidio.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/6319120800800819866'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/6319120800800819866'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/06/suicidio.html' title='Suicídio'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/TBUYPGA3PoI/AAAAAAAAAqE/VLVZ4iDNrO0/s72-c/revolver.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-2837469004736173920</id><published>2010-05-30T18:39:00.000-07:00</published><updated>2010-05-30T18:52:50.494-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>Tiros</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/TAMTr7-QNNI/AAAAAAAAAp4/fQFM5rVcJ7E/s1600/flor1.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5477243217366758610" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 255px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/TAMTr7-QNNI/AAAAAAAAAp4/fQFM5rVcJ7E/s320/flor1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Um calor acachapante emanava do epicentro do ferimento às extremidades. Não havia dor, apenas um formigamento acompanhado da sensação de que um fogo invisível e intenso queimava meu pé esquerdo, que acabara de ser atravessado por um tiro. Eu sabia que não morreria naquele instante. Nenhum filme compacto com os momentos mais marcantes de minha vida passou diante de mim, nem uma luz branca e resplandecente me chamou em direção a um corredor que me indicaria a passagem para uma outra vida. Pessoas gritavam ao meu redor, mas eu não ouvia nada. Os acontecimentos pareciam se desenrolar em câmera lenta. E foi assim, em &lt;em&gt;slow motion&lt;/em&gt;, que vi uma das balas passar à minha esquerda (lembrei-me, de pronto, da antológica cena de &lt;em&gt;Matrix&lt;/em&gt;), outra atingir de raspão minha mão direita e a última varar meu pé esquerdo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;br /&gt;De repente, desatei a correr sem rumo um pique de uns vinte metros. Em uma esquina, a lâmpada de mercúrio de um poste cegou minhas vistas. Cai no chão, que já se umedecia por uma garoa que insistia em cair. Deitado, consegui ver que minha disparada deixara um rastro de sangue. Agora, meu corpo era tomado pelo frio. Meus músculos começaram a se enrijecer e eu podia sentir meus lábios se embranquecerem. Quando criança, eu gostava de repetir os nomes dos ossos do corpo humano. Achava sonoro. Agora, tentava lembrar-me deles para descobrir qual teria sido fraturado pela bala: tarso, metatarso, falange...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei precisar em quanto tempo o resgate chegou – às vezes parece-me que foi em questão de segundos, em outras, parece que demorou uma eternidade. A ambulância parou perto. Ouvi passos apressados e apareceram diante de mim duas figuras: a de um homem negro magricela e a de uma mulher de cabelos ondulados e volumosos. Ela, a médica, ajoelhou-se e, com uma humanidade que me surpreendeu, perguntou meu nome, tirou meu calçado e examinou o ferimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que porra, ganhei esse tênis da minha irmã! Eu gostava dele! – disse eu, sentindo que a adrenalina percorria minhas artérias, me transportando a um estágio quase eufórico. Eu não conseguia parar de falar – a maioria das coisas, sem sentido e carregadas de palavrões, que saíam quase que naturalmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Doutora, eu vou conseguir jogar futebol, não vou? Meu pai era um craque e jogou até pouco tempo atrás. Não posso ficar atrás...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não dá p’ra saber ainda. Precisamos te levar ao hospital e estancar este sangramento. Você está perdendo muito sangue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Repreendi o enfermeiro que tentou colocar um colete cervical em mim, chamando-o de “preto do caralho” e esbravejando que estava bem e queria ir para casa. Tudo não passara de uma infeliz fatalidade. Eu levantava informações para uma matéria investigativa para o jornal sobre consumo de drogas, quando a polícia chegou. Apesar de eu ter levantado os braços para o alto, alguns dos projéteis foram disparados em minha direção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O compartimento interno da ambulância tinha cheiro de morte. Não sei se foi alucinação, mas posso jurar que vi um espectro à porta, antes de o enfermeiro a fechar. A médica me acompanhou, sentada ao meu lado esquerdo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Doutora, me dá a mão... – pedi, já lhe estendendo o braço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela proferiu algumas palavras. Seus lábios grossos se moviam com graça e seus olhos, vivos, davam-lhe uma expressão cândida, mas, ao mesmo tempo, forte. Passou a mão pelos meus cabelos e pousou-a sobre minha face.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Doutora, acho que estou sendo acometido por aquela Síndrome de Estocolmo, em que o paciente se apaixona pela médica... Não! Síndrome de Estocolmo é quando a vítima se sente atraída pelo sequestrador. Isto não é um sequestro, não é? Existe alguma síndrome quando se trata de médico e paciente? Caralho, ‘tô falando demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela sorriu suavemente. Deveria estar acostumada a esses galanteios baratos, que não fazem parte de meu feitio, mas que saltavam de minha boca involuntariamente. Suando frio, apelei para Leminski, dito poeta. Olhei para ela e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- “Amor, esse sufoco/ Há pouco era muito/ Agora, apenas um sopro/ Ah, troço louco/ Corações trocando rosas e socos”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O poema nada tinha a ver com a situação. Tudo bem! Minha consciência terminava de se esvair. Meus olhos pesaram e apaguei, para acordar somente no dia seguinte, em um leito de hospital. Na cabeceira, apenas uma rosa e um bilhete, assinado simplesmente por “Doutora”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;Curitiba, 30/05/2010 - 22h46&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-2837469004736173920?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/2837469004736173920/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/05/tiros.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/2837469004736173920'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/2837469004736173920'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/05/tiros.html' title='Tiros'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/TAMTr7-QNNI/AAAAAAAAAp4/fQFM5rVcJ7E/s72-c/flor1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-13656256554824335</id><published>2010-05-18T06:48:00.000-07:00</published><updated>2010-05-18T07:02:41.532-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>Achados e perdidos</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/S_KcmOG5_II/AAAAAAAAApQ/LWOh94gWiG4/s1600/crianca.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5472608677644598402" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 309px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/S_KcmOG5_II/AAAAAAAAApQ/LWOh94gWiG4/s320/crianca.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:arial;color:#999999;"&gt; &lt;span style="font-size:85%;color:#333333;"&gt;Foto: antes dos 4 anos, mas na velha casinha número 43&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;em&gt;“Pegue a viola, e a sanfona que eu tocava&lt;br /&gt;Deixe um bule da café em cima do fogão&lt;br /&gt;Fogão de lenha, e uma rede na varanda&lt;br /&gt;Arrume tudo mãe querida, que seu filho vai voltar”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;Fogão de Lenha&lt;br /&gt;(Carlos Colla / Maurício Duboc / Xororó)&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Era um menino “marrudinho”, como bem classificara seu avô. Não aceitou quando sua mãe lhe negou um pedido tão simples e lhe passou uma reprimenda daquelas. Saiu pisando duro, com suas botinhas ortopédicas cujos bicos já estavam gastos. Aquilo não haveria de ficar daquela maneira. Onde já se viu? Sairia de casa. Todos veriam do que ele é capaz. Cogitou em levar consigo duas cuecas e um pacote de bolachas Mabel – para o caso de sentir fome. Mas não! Faria tudo sozinho. Ah, eles iam ver só o que é bom para tosse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de partir, percorreu cada um dos quatro cômodos da casa, na esperança de que aquelas imagens fossem fotografadas pela retina de seus olhos. Sentiria saudade do velho sofá, da geladeira e do fogão vermelhos e do vasto quintal, palco de tantas aventuras. No fundo, não queria partir. Mas já havia decidido e jamais voltaria atrás. Com a vivência dos seus quatro anos, sete meses e sete dias, desabafou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ô, minhas ‘arma’, viu! Esse mundo dos adultos é muito chato!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cruzou o portão da casinha de número 43 sem olhar para trás. Tudo agora era Passado. Em poucos metros, dobrou a esquina. Para onde iria? Não tinha e menor ideia. De repente, sua mãe – a mesma que havia lhe passado um “sabão” – passou no Fiat 147 e lhe acenou, sorridente. O garoto se zangou ainda mais. Como pôde ela mostrar-lhe os dentes, se ele estava em fuga? Chutou um pedrisco e caminhou até a metade da quadra seguinte. Emburrado, sentou-se e cruzou os braços. Mas por quê havia fugido mesmo? Já não se lembrava. Criança que era, não seria capaz de guardar rancores ou mágoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seus pensamentos se desfizeram como nuvens nos ventos de julho, quando um cãozinho veio lhe mordiscar a meia. Olhou para ele com ternura e lhe afagou a cabeça. O menininho caiu em si. Percebeu que não conhecia aquele cachorro. Olhou a sua volta. Nunca havia passeado por aquela rua, nunca tinha visto aquelas casas, aquelas árvores, nem sentira o cheiro daquelas flores. Dois meninos chutavam uma bola, enquanto um grupo de meninas pulava elástico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pela primeira vez, percebeu que havia outras ruas além da em que morava. Tinha outras pessoas para conhecer, outros meninos com quem brincar e jogos novos a aprender. Começou a ter dimensão de que o mundo é muito maior do que ele supunha. Havia outras cidades, outros países, muitos lugares. Seriam todos iguais? Quais seriam as diferenças? Não sabia, mas queria descobrir. E começaria por aquela nova rua, em que um dos meninos lhe convidava para se juntar ao jogo de futebol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fim da tarde, abraçou os novos amigos e prometeu que voltaria em breve. Antes de partir, o garoto se enrubesceu quando uma das meninas do grupinho adjacente lhe piscou o olho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua descoberta fez com que já não se lembrasse que havia fugido de casa. Pensou em seus pais, na sua irmã e na casinha de número 43. Queria abraçá-los e contar sobre os novos amigos. Entretanto, uma angústia lhe apertou o coração. Pensou que um dia teria que sair de casa, trilhar seu próprio caminho, viver sua vida. Não haveria como abraçar o mundo e, ao mesmo tempo, ter aquele cantinho, junto dos seus. Controlou o nó da garganta e segurou o choro. A vida seria como um caminho que, cedo ou tarde, se bifurcaria e ele teria que escolher qual das vias seguir. Ponderou por um minuto e voltou a sorrir. Qualquer dos caminhos que seguisse, haveria coisas boas, suas vantagens, suas belezas e sua poesia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltou para a casa saltitante e perguntou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mãe, ainda tem aquele bolo de cenoura com chocolate?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;Curitiba, 18/05/2010 - 10h55&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-13656256554824335?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/13656256554824335/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/05/achados-e-perdidos.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/13656256554824335'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/13656256554824335'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/05/achados-e-perdidos.html' title='Achados e perdidos'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/S_KcmOG5_II/AAAAAAAAApQ/LWOh94gWiG4/s72-c/crianca.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-8189268283069629476</id><published>2010-04-23T18:27:00.000-07:00</published><updated>2010-04-23T18:40:01.660-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>Inocência</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/S9JKbeyG70I/AAAAAAAAAL0/vH430Wl3Zng/s1600/inoc%C3%AAncia+-+bruno+bordalo+oliveira.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5463511133933989698" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 202px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/S9JKbeyG70I/AAAAAAAAAL0/vH430Wl3Zng/s320/inoc%C3%AAncia+-+bruno+bordalo+oliveira.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Josué, quando sua mãe vai dar de novo? – perguntou Márcio, em tom absolutamente natural, como quem indaga sobre qual será a data do próximo jogo do campeonato nacional ou como quem questiona o que o amigo vai fazer no fim de semana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Parece que na quinta-feira o Jair vai lá em casa... – soltou Josué, enquanto se acocorava para executar sua jogada da vez na disputa de bolinhas de gude.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E a gente pode ir lá ver? – quis saber Thiago, que, assim como Gerson e Paulinho, também participavam do jogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pode, ué... – respondeu Josué, laconicamente, desferindo a bolinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na noite combinada, os moleques se encontraram em frente à casa de Josué. A janela do quarto de Cândida, mãe do garoto, dava para um corredor lateral, acessado por um portãozinho estreito. Enquanto aguardavam, conversavam assuntos compatíveis com os cerca de dez anos de idade que tinham. Um comentário de Márcio sobre o último episódio do McGyver foi interrompido pelo som da porta batendo e pela luz que se acendeu no aposento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por duas fendas na janela de madeira – uma comprida verticalmente, de uns cinco centímetros, e a outra um pouco menor – os garotos se revezariam para ver Cândida se entregar a mais um de seus furtivos amantes. Quase toda a semana era aquilo: os meninos se amontoavam no corredor da casa de Josué, para ver sua mãe bêbada fornicar com um qualquer que ela arranjava no Bar Estrela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Thiago, que tinha doze anos e era o mais velho da turma, foi o primeiro a espiar pelo maior e melhor posicionado orifício. Pelo buraco, ele viu Jair jogar a mulher sobre a cama com certa brutalidade, enquanto ela gargalhava debilmente. Em pouco tempo, ele já estava sobre Cândida e se servia dela como um animal. De quando em quando, Josué também espiava a própria mãe a se entregar a um quase desconhecido, mas, ensimesmado, parecia não dar muita importância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já os outros meninos, continham o riso e cochichavam para evitar que fossem pegos pelos tórridos amantes. Márcio gostava de ver os seios de Cândida. Achava bonito o formato, o tamanho... bem melhor que aquelas fotos em preto e branco que custavam a conseguir. Paulinho soltava um risinho nervoso quando via o membro intumescido do macho. Para os colegas, aquilo era um indicativo de tendências homossexuais, o que rendeu ao menino a alcunha de “Margarida”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jair resfolegava sobre sua concubina, com movimentos que seriam mais próprios de agressões do que um ato de carinho. Com volúpia, a mulher ora sorria alto, ora gritava, soltando palavrões que enriqueciam o vocabulário sujo dos garotos. Por fim, o homem saiu de dentro de Cândida e jorrou seu líquido sobre o corpo dela, que, extasiada, soltava grunhidos ininteligíveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele mijou nela! – admirou-se Gerson, que pela primeira vez assistia a cena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Aquilo não é mijo. É porra, seu burro! Ele gozou nela! – corrigiu com ar superior Thiago, que havia aprendido aquilo com seu primo mais velho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Josué agora balançava a cabeça querendo afastar esses fragmentos de lembranças que insistiam em assombrar sua mente. Já não tinha mais nove anos, mas, sim, era um homem feito, de trinta e poucos. Já não estava mais com seus amigos, vendo sua mãe dar para um vagabundo. À sua frente, um menino nu – doze anos, no máximo – chorava, com uma expressão de dor e horror. Olhou para baixo e percebeu que também ele, Josué, estava com as calças arriadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que diabos! Acontecera de novo. Mais uma vez, se servira de uma criança, como os bêbados devoravam sua mãe. Era, também, como se estivesse se vingando de seus amigos que, inocentemente, lhe faziam assistir àquelas cenas que abominou quando passou a entender do que se tratavam. Naquele instante, tinha nojo de si mesmo e repugnava o garoto que estava à sua frente, tentando nervosamente vestir o shorts carcomido. Não lhe restava outro remédio, senão matá-lo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;em&gt;23/04/2010 - 22h35&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;em&gt;foto: Bruno Bordalo Oliveira (www.olhares.com) &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-8189268283069629476?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/8189268283069629476/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/04/inocencia.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/8189268283069629476'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/8189268283069629476'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/04/inocencia.html' title='Inocência'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/S9JKbeyG70I/AAAAAAAAAL0/vH430Wl3Zng/s72-c/inoc%C3%AAncia+-+bruno+bordalo+oliveira.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-6562666241894990667</id><published>2010-03-31T19:13:00.000-07:00</published><updated>2010-03-31T19:22:07.013-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>Lobistas</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/S7QCV_XXRqI/AAAAAAAAAEU/Ggxkxk1pgWg/s1600/lobby.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5454987625462449826" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 313px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/S7QCV_XXRqI/AAAAAAAAAEU/Ggxkxk1pgWg/s320/lobby.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;em&gt;“ Lobista é toda pessoa física ou jurídica, pública &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;em&gt;ou &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;em&gt;privada, que exerça, &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;em&gt;ainda que transitoriamente&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;em&gt; ou sem remuneração, por eleição, &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;nomeação, &lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;designação, contratação ou qualquer outra &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;forma&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;em&gt;de investidura ou vínculo, qualquer atividade&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;em&gt; tendente a influenciar &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;em&gt;o processo legislativo &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;em&gt;ou a tomada de decisões públicas”. &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;(projeto de lei do deputado Geraldo Resende (PPS-MS), &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;que queria regulamentar a “profissão” de lobista)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Deus estava num mau humor dos infernos naquele dia. Não bastasse ter que administrar crises colossais, como o aquecimento global, catástrofes naturais e o fascínio da humanidade pelo poder, uma vez por semana era aquilo: sentar-se para despachar os milhões de pedidos que lhe chegavam de seus filhos da Terra. Cada solicitação vinha ao Criador em forma de um processo que se juntava a tantos outros, em pilhas e pilhas de papéis, aguardando despacho celestial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para auxiliá-Lo, ainda na Idade Média, Deus nomeou intermediários, os santos, que deveriam lhe trazer as mais sinceras solicitações de seus filhos, para que Ele as julgasse de modo rápido e seguro. Por isso, a cada sete dias, realizava audiências com seus representantes, para avaliar os pedidos. Organizou uns calhamaços no canto da mesa, sentou-se e determinou que os santos entrassem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como sempre, os três primeiros a entrar foram Expedito, Judas Tadeu e Edwirges. Enfadado, Deus bocejou e ordenou que se sentassem e que começassem a apresentar os pedidos. Eloquentemente, começaram a falar ao mesmo tempo, argumentando verborragicamente e apontando motivos pelos quais o Pai deveria conceder a benção aos fiéis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Altíssimo se impacientou. O teor dos pedidos era sempre o mesmo. Fulano quer aquela promoção no emprego, cicrano quer uma casa mais espaçosa, a outra quer emagrecer, o outro quer trocar de carro e o suposto trabalhador de respeito quer uma mãozinha para quitar sua dívida com o agiota. Todos os pedidos eram de ordem pessoal e individualizados. Deus jogou a pena sobre a mesa, levantou-se e começou o desabafo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quando fiz de vocês meus intermediários, tudo funcionava tão bem. Vocês selecionavam os pedidos antes de trazê-los a mim. Facilitavam o meu trabalho e poupavam meu tempo, que podia ser empregado em coisas deveras urgentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Há que se considerar que os pedidos também eram outros, Senhor – argumentou Judas Tadeu, o das causas impossíveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, Judas. Os homens estão sempre insatisfeitos, querendo sempre o que não têm. O verbo essencial se deslocou do “ser” para o “ter”. Quanto mais os séculos passam pela ampulheta celestial, mais a humanidade se torna mesquinha. Esse consumismo – que com certeza é coisa do Capeta – deixou a todos mais individualizados, focados em si. E esse fenômeno está em franca expansão. Muito em voga. – avaliou o Pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os santos se entreolharam, denotando uma certa preocupação com o rumo que a prosa estava tomando. Tudo o que queriam, era que o Criador deferisse os pedidos e ponto. Deus folheou alguns dos processos e sorriu ironicamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vejam só. Fabrício Augusto quer reatar com a esposa, que lhe pediu o divórcio. Entretanto, esse sujeitinho sempre foi indiferente à sua mulher, a trata com desprezo e, de quebra, ainda mantém dois casos extra-conjugais. E essa outra. Marilene Cristina fez promessa para pagar uma dívida. Mas gasta quase todo seu salário em jogos de azar e se endividou comprando coisas das quais não necessitava. Essa é impossível até para Mim. – disse o Pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas que culpa temos nós, os santos? – colocou expedito, o das causas urgentes, ajeitando o saiote de soldado romano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vocês? Oras! Parecem que foram contaminados pela atmosfera terrena. A concessão de graças e bênçãos virou um grande negócio. Um pedido realizado em troca de alguns milhares “santinhos” impressos e espalhados pela comunidade. Parece que não lhes importa a finalidade da solicitação, mas sim a divulgação pela graça concedida. Não Me admira que sejam vocês os santos mais populares da igreja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os três se encolheram nas cadeiras. Deus, agora, saia de trás da mesa e caminhava em direção ao local onde estavam sentados. O semblante do Altíssimo não era de ira, mas de desalento pela constatação de que mais um mecanismo divino fora corrompido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Na Terra, nas assembleias legislativas, os parlamentares costumam prometer mundos e fundos e conceder benesses que já haviam sido determinadas pelo Orçamento, e pagas pelo Executivo. Ou seja, pelo próprio povo. Trocando em miúdos, fazem cortesia com chapéu alheio. Há outros casos ainda, de pessoas que exercem pressão junto aos poderes em favor de pessoas ou grupos, defendendo-lhes interesses puramente particulares. Tudo porque mantêm uma relação direta com o poder. Esses são chamados lobistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Soberano olhou para cima e respirou profundamente. Era difícil até para Ele dizer aquelas coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não lhes parece que é o que vocês estão a fazer? Defender interesses particulares, em troca de notoriedade. A diferença é que, se na Terra a moeda de troca é o voto, o que lhes move são os santinhos e a famigerada popularidade. A essência e a finalidade do processo é o mesmo: o poder! Só resta saber quem começou primeiro com a prática: se vocês ou os parlamentares. – finalizou Deus, saindo do recinto balançando negativamente a cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele dia, nenhuma graça foi concedida.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;Domingo, 28/03/10 – 15h22&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-6562666241894990667?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/6562666241894990667/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/03/lobista.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/6562666241894990667'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/6562666241894990667'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/03/lobista.html' title='Lobistas'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/S7QCV_XXRqI/AAAAAAAAAEU/Ggxkxk1pgWg/s72-c/lobby.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-2966238135905548649</id><published>2010-03-23T14:48:00.000-07:00</published><updated>2010-03-23T14:58:09.550-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>Trecheiro</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/S6k4N5vsfpI/AAAAAAAAAEM/QLXBQOV_gFw/s1600-h/estrada.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5451950635399020178" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 193px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/S6k4N5vsfpI/AAAAAAAAAEM/QLXBQOV_gFw/s320/estrada.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;em&gt;“Eu zanzei pelas ruas, um mulambo&lt;br /&gt;Sonâmbulo, insano e insano”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;(Vale de Lágrimas – Lulu Santos)&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;“Quantas noites e nós por aí,&lt;br /&gt;Trafegando pela marginal&lt;br /&gt;Sem largar o corrimão da estrada”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;(Peão do Trecho – Zé Geraldo)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;A brisa soprava uma dose de alento contra seu rosto, que ardia sob o sol a pino. Gotas de suor vertiam de suas têmporas e deslizavam quase inertes, até se esconderem entre os fios grosseiros de barba, que lhe davam um aspecto cavernoso. Pelo buraco da sola carcomida de sua botina ordinária, seu pé esquerdo – em carne viva – latejava toda a vez que tocava o asfalto quente. Do chão, emanava um calor que lhe dava a impressão nítida de estar vivendo um sonho ruim. Sua boca colava diante da sensação de sede, mas ele continuava firme. Lembrou-se de Dante e todas as imagens que sempre fizeram do inferno. Seriam semelhantes àquilo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No horizonte, a estrada se estendia, qual uma gigantesca serpente cinzenta. À mão direita, um pedaço de madeira, improvisado como cajado, ajudava-lhe a dar firmeza aos passos. A mão esquerda, de quando em quando, se apoiava no guard-rail da rodovia, usando-o como corrimão. Há quanto tempo já estaria naquela jornada? Onde queria chegar? Nem ele mesmo sabia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não gostava de quando a noite caía, pois a calma trazida pela escuridão e pela lua o fazia pensar. E ele não queria se lembrar. Quando fechava os olhos, surgia diante de si apenas a imagem de seu filho, ensanguentado, agonizante e frágil, trazido em uma maca fria. Os anos de experiência com o bisturi nas mãos, todas as mortes que já evitara, todas as cirurgias que já havia realizado, todo o respeito que gozava perante a sociedade – o mais renomado doutor da região –, todas as obras beneficentes no Rotary da cidade, enfim, nada disso bastou. Não pôde evitar que a Morte aliciasse seu único filho, deixando apenas aquele corpo gélido sobre a mesa do centro cirúrgico. De vez em quando, parecia ainda ouvir as últimas palavras sussurradas pelo pequeno: “Não me deixe, pai”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando jogaram a última pá de terra sobre o caixão do filho, era como se sua própria vida lhe escapasse pelo vão dos dedos. Ateu que era, passou a crer em Deus só para brigar com Ele. Diante de suas alucinações, cruzava os dedos em direção aos céus, como em desaforo às forças superiores. Abandonou definitivamente a vida de farsas que vivia, como se fosse uma espécie de ser superior e inatingível. Não pisou mais em sua casa, que simbolizava para ele este modelo de vida. Caminhou dias e noites sem rumo. Vagou. Zanzou. Dormia em qualquer canto, comia graças à caridade alheia,... subsistia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em pouco tempo, não lembrava nem de longe a figura nobre e imponente que era, quando médico predileto da burguesia da comarca. Agora, metido em trapos, sujo, fétido, estava animalizado. Era uma casca podre que provocava o asco de quem passava por perto. Uma vez, uma garotinha – devia ter uns seis anos – lhe cuspiu na cara. Ele não fez a mínima menção de limpar-se. A saliva escorreu-lhe pela face, enquanto ele aceitava o gesto como parte da punição por ter sido incapaz de salvar seu único filho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, penandosob o sol, há quilômetros da próxima cidade, ele se lembrou de que uma vez leu um livro que falava das subdivisões do cérebro humano. De acordo com a publicação, havia uma parte destinada a cada um dos três tempos: presente, passado e futuro. A seção que correspondia ao presente estava relacionada ao comando dos movimentos corporais. As pessoas que se atêm exclusivamente a esta parte querem, inconscientemente, se esquecer das outras duas: passado e futuro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Concordou consigo mesmo, com um movimento simples de cabeça e com um som gutural. Era preciso castigar o próprio corpo para ficar no presente, esquecer-se dos infortúnios do passado e para não se mirar nas incertezas do futuro. Apertou mais forte seu cajado e apressou os passos, enquanto uma lágrima correu do seu olho direito e se misturou ao suor. É preciso cansar o corpo. Nada mais urgente que o pó da estrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Em corpo cansado, a alma não tem tempo de sofrer! – concluiu, fitando mais uma vez o horizonte.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;(23/03/2010 - 18h51)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;Aos meus queridos e eternos trecheiros: Ju, Flavinho, Piolinho e Giu&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-2966238135905548649?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/2966238135905548649/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/03/trecheiro.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/2966238135905548649'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/2966238135905548649'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/03/trecheiro.html' title='Trecheiro'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/S6k4N5vsfpI/AAAAAAAAAEM/QLXBQOV_gFw/s72-c/estrada.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-911619036673792247</id><published>2010-02-28T11:49:00.000-08:00</published><updated>2010-02-28T15:49:36.857-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pessoais'/><title type='text'>Saudosismo</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/S4rJeKBjdCI/AAAAAAAAADQ/Vx9fFPfFFgM/s1600-h/bauru+4.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5443384619554796578" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 240px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/S4rJeKBjdCI/AAAAAAAAADQ/Vx9fFPfFFgM/s320/bauru+4.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;em&gt;"Nada do que foi será&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;em&gt;De novo do jeito que já foi um dia"&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Como uma onda no mar (Lulu Santos)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;De repente, você olha para trás e está tudo ali: derrotas, conquistas, lutas, pessoas, passagens, lugares. Todos os elementos que te trouxeram onde você está hoje permanecem neste baú empoeirado. Aquele fato que você pensou que te faria desistir da vida, agora não passa de uma cicatriz na alma. Aquele feito que te fez sentir o melhor dos seres humanos não é mais do que uma foto afixada em um mural ou de uma boa lembrança. Tudo já passou. É Passado. Ponto final!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não para mim. Fatos, pessoas, lugares, cheiros, formas, sensações, cores e sons jamais passam. Parecem fazer parte do que sou agora e se mantêm perenemente em órbita, ao meu redor. Estico os braços, mas quando vou tocá-los, se desvanecem. Desintegram-se no ar, contraditoriamente à concretude com que se me apresentam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rádio toca “Break on Trought” e o riff inicial transporta-me para outros tempos. O Cabeludo bate à minha porta e me convida para uma festinha de república qualquer. Sob os protestos dos outros integrantes da República Cativeiro, o Anão coloca um CD de sambas-enredo no “repeat” e corta ao meio uma garrafa pet, que vai lhe servir de copo para sua tradicional pinga com Fanta. Em volta da mesa de mármore da cozinha, estamos nós, sentados, tal qual os cavaleiros da távola redonda. Brindamos à vida e a bebemos com a sede de quem pressente que ela pode acabar amanhã. (“Arriba, abajo, ao centro... p’ra dentro!”).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na festa, em instantes, o Dick surge embriagado com quatros Ixcolzinha (Skol’zinhas, num sotaque carregado de carioca). Encontro o Joca e o Daniel (a dupla Jack &amp;amp; Daniel’s), cada qual com sua long neck. Conto os trocados no bolso, e compro uma pinga de anis do Chileno, enquanto tento decifrar qual música que a bandinha (ruim, por sinal) toca lá dentro. Agora, os Cativos estamos reunidos novamente e transitamos pelas rodinhas de Psicologia, Rádio e TV e Jornalismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou com os cabelos despenteados, vestindo a camiseta que eu mesmo pintei, uma calça surrada e um dos meus imortais All Star’s. A barba por fazer, a vida por levar, enquanto a noite nos devora e nós a bebemos. Passa um cara de Jornal e grita “Aê, Cazuza!”, ao que retribuo levantando solenemente o copo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De longe, uma mocinha me sorri. Quando passo por ela, no corredor onde se compra cerveja, ela me pergunta se sou o Piraju. Conversamos longamente, mas hoje eu quero apenas celebrar com os meninos. Mais um brinde à vida e, quem sabe, amanhecer na Cativeiro, tocando violão com Leão. Incenso, Chico Buarque, Zé Geraldo e prosa. Amanhã, trabalhamos, mas dormir é perda de tempo! A vida nos conclama a transcender cada segundo. E temos pressa de viver.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5443384860831927522" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 211px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/S4rJsM2gTOI/AAAAAAAAADY/R6c4qYxmT2k/s320/bauru1.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Daqui uns dias já será domingo e vai ter torta de maçã na República das Bethânias. Ficarei “puto” porque o Dick terá direito ao maior pedaço e a sentar-se no melhor lugar, mas vai ser ótimo matar a saudade das meninas. No banheiro, vou ler as novas poesias da Vanessinha, penduradas na porta. A Ara vai me mostrar o disco de vinil do Cartola, enquanto a Mari vai passar um café para falar sobre o seu trabalho, embasado em Bergson. Também não pode faltar a canjinha da Evelyn Hou, tocando Pato Fu no violão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para a próxima semana, teremos que terminar aquele trabalho de Teoria da Comunicação e editar o documentário sobre prostituição, mas, em compensação, tem Festa do Raul, na República Gato Morto. A qualquer momento, poderei trombar o Luciano na rua ou passar na livraria do Édson para filar aquele arroz carreteiro. No final da tarde, pode ter conversas ao por do sol no apê da Bruna, um suco no Vitória Régia com a Luzia ou, quem sabe, tomar uma no Bar da Rosa. De repente, ainda rola um futebol contra os veteranos de Rádio e TV (e ganhamos sempre), mas não pode ser na quarta-feira, porque já combinei de ver Cazuza com a Mari, no cinema. Para ir à faculdade, carona no jipe (lotado) do Anão, mas, antes, aquele campeonato de Tétris. No intervalo da aula, filosofar com o Tigre (Sheakespeare ou Los Hermanos?) e exercitar o “botãozinho da morte”. O Flavinho devia estar em Bauru à essa época, mas estaria metido a ler os clássicos em seu canto. Quem dera conhecer o Crébi nesses anos... certamente, ele estaria entre nós, ecoando seus acordes, com seus ainda longos cabelos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo está ali. Concreto, como um retrato do que fomos um dia e do que contribui para que sejamos hoje. O Passado não passou. Está sempre a nos lembrar de um longo caminho, que se estende adiante (o que chamam de Futuro). Mas não quero apenas voltar meu olhar para trás, nem tentar mirar o que está lá na frente. Consideremos o que passou, mas é preciso trilhar o caminho de agora, inserir novos personagens. Vou à vida, porque amanhã terei novas pessoas para me lembrar. Um brinde! &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5443386610813889906" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 240px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/S4rLSECt7XI/AAAAAAAAADg/APtgt1W6tAg/s320/bauru.jpg" border="0" /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt; &lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;28/02/2010&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-911619036673792247?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/911619036673792247/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/02/saudosismo.html#comment-form' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/911619036673792247'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/911619036673792247'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/02/saudosismo.html' title='Saudosismo'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/S4rJeKBjdCI/AAAAAAAAADQ/Vx9fFPfFFgM/s72-c/bauru+4.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-8642860911047746075</id><published>2010-02-15T16:30:00.000-08:00</published><updated>2010-02-15T16:37:38.933-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>Inferno</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/S3nocYs7UQI/AAAAAAAAADI/cGHMZXonta0/s1600-h/dantes_inferno.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 168px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/S3nocYs7UQI/AAAAAAAAADI/cGHMZXonta0/s320/dantes_inferno.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5438633599391453442" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style=" ;font-family:Arial;"&gt;Quem levantou a questão foi um jovem filósofo que acabara de se matar – não bebendo cicuta, como o outro, mas com um tiro seco na cabeça, diante da constatação de falta de alento para a humanidade. Como não poderia permanecer no céu – visto que era um suicida –, pediu uma audiência com Deus. Encontrou-O sentado em seu trono celestial, a coçar a longa barba que se estendia pela face.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style=" ;font-family:Arial;"&gt;- Senhor, antes que eu seja enviado às chamas, queiras, ao menos, me satisfazer uma dúvida. Se todas as coisas do mundo foram criadas por Ti, então também Tu criaste o Inferno? E mais ainda: considerando que estás em todos os lugares ao mesmo tempo, também Tu estás no Inferno, ó Pai Celeste?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style=" ;font-family:Arial;"&gt;O Soberano estremeceu-se na cadeira, franziu a testa e ajeitou os longos cabelos. Que diabos! Em toda a eternidade, ninguém jamais lhe colocara uma questão como aquela. Com certeza os anjos estavam mais a lhe bajular, do que apontar eventuais falhar que sua inefabilidade pudesse vir a cometer. E aquele filósofo – com certeza, um comunista desqualificado – estava certo. Deveria admitir que havia uma lacuna lógica (e teológica), reforçada pela sua onipresença.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style=" ;font-family:Arial;"&gt;Deixou temporariamente o jovem filósofo de lado. Haveria de resolver esta questão teológica, antes que o incidente vazasse, gerando uma crise celestial (e neste aspecto já lhe bastavam os cataclismas e desencarnes em massa que estavam ocorrendo). Chamou um anjo mensageiro e mandou-o convocar o Diabo para uma reunião secreta e urgente, no Purgatório, que era território neutro.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style=" ;font-family:Arial;"&gt;O Criador já se impacientava com os quarenta minutos de atraso do Belzebu, quando um cheiro pesadíssimo de enxofre envolveu o ambiente. Em passos lentos, vinha o Capeta com seu peculiar riso contido, por detrás dos finos bigodinhos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style=" ;font-family:Arial;"&gt;- Salve, Alteza! – disse, com contornos de ironia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style=" ;font-family:Arial;"&gt;- Sente-se, Lúcifer. A situação é séria por demais e não podemos perder tempos com lenga-lengas. – pontuou o Magnânimo. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;Deus então expôs o problema: se Ele havia criado todas as coisas e se estava em todos os lugares, logo também estava no Inferno, por conseguinte, e havia criado o Reino das Trevas. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;- Ah, não me venha meter o dedo no meu Inferninho! – bradou o Coisa Ruim. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;- Não estou interessado no seu território e, sim, em achar uma saída para desfazermos essa lacuna teológica. – respondeu o Celeste, secamente. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;De seu lado, o Demônio pôs-se a pensar, rodando levemente a cauda, enquanto o Senhor caminhava em círculos, divagando em voz alta. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;- Quando te expulsei do Paraíso, Lúcifer, apenas quis te isolar em um lugar qualquer. Jamais quis valorizar o Inferno... &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;- É... eu sei. Isso foi coisa daquele pessoal do Antigo Testamento. – completou o Diabo. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;- Pois é! Nunca gostei daquela imagem que fizeram de Mim. Quem lê, pensa que eu sou um Deus vingativo e perseguidor, que exige sacrifícios de animais e que castiga seu povo por décadas ininterruptas de peste. – continuou o Pai. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;- Ah, mas eu tenho que agradecê-los! Se não fosse por eles, o Inferno não teria hoje a notabilidade que têm! – sorriu o Capeta. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;- É verdade! Depois veio a Idade Média e se esqueceram da glória do meu filho ressuscitado e passaram a apregoar a imagem dele morto, crucificado. Passaram a seguir meus mandamentos não por amor a Mim, mas por medo. Afff... isso é terrível! Quantas mortes injustas em meu nome... – soluçou o Altíssimo. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;- É verdade! Mas admita que Seu Reino só existe ainda por causa do Inferno. Se não houvesse o meu território, não haveria medo. Não haveria Céu... Não haveria Deus... – argumentou o Belzebu. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;- Talvez você esteja exagerando, meu caro. Mas a situação é, sim, preocupante. As igrejas neopentecostais estão aí para provar o que você acaba de dizer. Para cada vez que invocam o meu nome, dizem dez vezes a palavra “Inferno” ou “Demônio”. Parecem que gostam mais de você do que de Mim. Milagres fazem aos montes, mas morrer na cruz que é bom, ninguém quer. – desabafou Deus. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;O impasse perdurava, a discussão se estendia e não se chegava a nenhuma conclusão. O Inferno estava se tornando, realmente, o centro das atenções. De Gil Vicente a Dante Alighieri, quantos já não haviam se ocupado do tema? &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;Agora, o Demo reclamava ainda dos custos de manutenção do Inferno. Só em gás para aquecer as caldeiras e fornalhas, eram milhões de dólares por ano. Assim, não havia entidade maligna que aguentasse. A situação estava virando um inferno. Foi Deus, em sua infinita sabedoria, que pôs fim à celeuma. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;- Ora, o Inferno precisa existir, pois sem eles vamos à bancarrota, caro Lúcifer. Entretanto, tive uma ideia que vai livrá-lo dos custos de manutenção do seu reino, vai te dar mais liberdade, e, de quebra, vai acabar com essa lacuna teológica, de eu ter criado o Inferno e estar nele também. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;Silenciosamente e como num passe de mágica, o Pai suprimiu o Inferno da face do Universo. O Reino das Trevas não precisaria existir concretamente, em um espaço físico determinado e caracterizado com fogo, enxofre e ranger de dentes. Caprichosamente, Deus inseriu pedacinhos do Inferno no cotidiano das pessoas. O Inferno estava em um emprego de que a pessoa não gostava, em um relacionamento fracassado e mal sucedido, em uma amizade mentirosa, na solidão assustadora, em uma família que se desmantela, no preconceito arraigado, enfim. O Inferno passou a estar escondido no dia-a-dia das pessoas e cada um teria o seu quinhão, de acordo com o que merecesse.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;Segunda-feira, 22/02/2010 - 22h22&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-8642860911047746075?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/8642860911047746075/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/02/inferno.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/8642860911047746075'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/8642860911047746075'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/02/inferno.html' title='Inferno'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/S3nocYs7UQI/AAAAAAAAADI/cGHMZXonta0/s72-c/dantes_inferno.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-4286996928645430834</id><published>2010-02-08T17:11:00.000-08:00</published><updated>2010-02-09T07:10:00.735-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>Fim</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/S3C3zjOhdHI/AAAAAAAAADA/cA9tBXY-KIA/s1600-h/chuva.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5436046846493553778" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 246px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/S3C3zjOhdHI/AAAAAAAAADA/cA9tBXY-KIA/s320/chuva.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;em&gt;"Eu respiro tentando&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;em&gt;Encher os pulmões de vida&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;em&gt;Mas ainda é dificil&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;em&gt;Deixar qualquer luz entrar..."&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;50 Receitas &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;(Leoni/ Frejat)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:Arial;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:Arial;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style=" ;font-family:Georgia;"&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;em&gt;"É só isso&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;em&gt;Não tem mais jeito&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;em&gt;Acabou, boa sorte"&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Boa Sorte/ Good Luck&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style=" ;font-family:Arial;"&gt;(Ben Harper/ Vanessa da Mata)&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Não posso te dar o que você merece, querida. Melhor pararmos por aqui...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia era cinzento e uma garoa fina insistia em cair homogeneamente, fazendo com que as gotas finas se misturassem às lágrimas que escorriam pelo rosto de Anna. Não sentia naquela voz lacônica do telefone o menor resquício do calor humano com que ele sempre a tratara. Frieza. As palavras lhe agrediam igual uma cusparada na face, como acontecera em um pesadelo recorrente. “Nem teve a decência de me olhar nos olhos”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escondida por detrás das lentes escuras de seus óculos de sol – embora chovesse –, ela cortou caminho por entre pessoas que passavam apressadas com seus guarda-chuvas que tornavam o dia ainda mais cinzento. Andava apressadamente à deriva, tal qual sua vida: sem destino. Só voltou a dar por si quando acordou em sua cama, com a roupa ainda úmida, com os olhos inchados e com o peso do mundo sobre suas costas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentava entender o inexplicável. Os “por quês” jaziam mudos, no chão, sem respostas. Sentia-se cansada, esgotada, dolorida... “fodida”. Não por tudo que fizera. Jamais! Não se arrependia de nada que havia feito. Pouco importava se tinha abandonado uma proposta de emprego naquela multinacional de medicamentos – seria farmacêutica industrial, seu sonho –, se amargara a solidão em uma quitinete alugada para ficar mais perto dele, ou se tinha se doado por completo, de uma maneira que jamais fizera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fechava os olhos e voltava a ter seis anos de idade e estava deitada no banco de trás do Fusca de seu tio, com as pernas cruzadas sobre o encosto do banco, ouvindo Vinícius de Moraes. Sonhava em ter um amor daquela intensidade. Mas não sabia que ele lhe fugiria da maneira mais covarde, lhe deixando marcas na alma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabia que não haveria para onde fugir, pois aquela presença invisível, que é a dor, lhe acompanharia para sempre. Ele estaria no vestido que lhe dera naquele final de semana na praia, nos chás divididos nas noites intermináveis ou em um sabiá que rompe o silêncio da madrugada. Todas as músicas pareceriam sem sentido e os dias seriam apenas 24 horas seguidas. Abandonaria o curso de pintura em tela, que iniciou por causa dele, assim como deixaria de frequentar as aulas de francês.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentava sufocar o pranto, mas, de quando em quando, ele irrompia em soluços. Teria que chorar na companhia da solidão. Sentia vergonha do que sentia! Como dividir aquilo com suas amigas? Como desabafar e falar que se apaixonara por um homem mais velho, casado e que jamais teria coragem de abrir mão da segurança de que dispunha para viver a incerteza, que era o que ela podia lhe oferecer? Como explicar – que vergonha, diabos! – que após todas as juras, era com a outra que ele dormiria? Como falar que, apesar de toda doçura e sinceridade que pareciam brotar de seus atos, era com ela que ele construía sua vida, planejava, “metia”... Como? Sentia vergonha e se sentia suja! Suja! Imunda!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anna evitava olhar-se no espelho. Evitava tocar sua agenda, onde estava relatada sua história, que chegou a julgar que seria eterna. Agora, tinha raiva de si mesma. “Até parece que ele, 38 anos, vivido e escolado, vai deixá-la por mim, uma menininha de 22 anos”, dizia para si mesma, em voz alta. Mas os pensamentos se chocavam e ela se lembrava dos lábios grossos tocando os seus e da barba mal feita lhe roçando a pele. Vinha-lhe à cabeça as incontáveis vezes em que ele a comparava com sua esposa, sempre com uma conclusão: “Você é muito mais mulher! Au concour, meu amor”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Advogado, tímido e intensamente sensível. Com “um puta” potencial, tolhido sempre pelas escolhas erradas. Não era, jamais, do tipo que se acostumaria a manter amantes. Mas que foi incapaz de ficar imune à avalanche que aquela jovem de cabelos negros e cacheados, cheia de vida e de poesia, lhe proporcionou desde o primeiro momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todas aquelas constatações lhe aumentavam a dor. Mas, de um ímpeto, enxugou as lágrimas com as costas das mãos. Vivera imensamente cada segundo ao lado daquele homem. Não se arrependia de nada que havia feito, do que tinha deixado de lado por ele. Nada disso a incomodava. Amaria para sempre aquele homem. O que a magoava profundamente era a certeza de que nunca representara nada a ele. Nunca passara de uma brincadeira boba e sem sentido. Da conversa “final”, ao telefone, lembrava-se de uma frase solta, dita por ele: “A vida real não é como nos livros!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Definitivamente, não! – disse ela, desistindo de si mesma.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;em&gt;Para "Magrela"&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;em&gt;08/02/2010 - 23h11&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-4286996928645430834?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/4286996928645430834/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/02/fim.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/4286996928645430834'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/4286996928645430834'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/02/fim.html' title='Fim'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/S3C3zjOhdHI/AAAAAAAAADA/cA9tBXY-KIA/s72-c/chuva.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-731893594766859729</id><published>2010-02-03T16:47:00.000-08:00</published><updated>2010-02-03T17:06:16.657-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>Despedida</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/S2oaq9m-GEI/AAAAAAAAAC4/-Wbub07ZnHY/s1600-h/rosa.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5434185225770768450" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 205px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/S2oaq9m-GEI/AAAAAAAAAC4/-Wbub07ZnHY/s320/rosa.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;em&gt;"Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar"&lt;br /&gt;Canção da América (Milton Nascimento/Fernando Brant)&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Em um cruzamento do chamado Centro Histórico da cidade, ele me abordou pousando uma das mãos sobre meu ombro esquerdo. Seus olhos tinham um brilho calmo e estranhamente familiar, que combinavam com aquela manhã de domingo ensolarado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Preciso conversar com você. – disse-me, com um timbre de voz que complementava a lucidez com a qual se pronunciava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha primeira reação foi tentar me desvencilhar, mas ele insistiu com um “por favor” dito de maneira tão franca, que foi impossível não parar para ouvi-lo. Gesticulava bastante, mas com movimentos lentos e leves, como em um balé improvisado. Contou-me brevemente sua história e que havia decidido falar comigo após uma série de visões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Militar reformado, viúvo e “amigo de Deus”, seu Jéferson passara a “ver coisas” dois meses depois do falecimento de sua mulher, há alguns anos. Duas semanas atrás, um menininho lhe acompanhava insistentemente, pedindo-lhe, com um olhar cândido, que me abordasse e me dissesse que ele esperava para nascer. Era sua visão mais recente e algo lhe dizia que ele tinha que entrar em contato comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sacudi a cabeça, como quem não queria acreditar no disparate que acabava de ouvir. Seu Jéferson descrevia o menino com riqueza de detalhes: entre um e dois de idade, cabelos castanhos claros penteados para o lado e um jeito entre a timidez e a paciência, realçado por um suave furo no queiro. Na tentativa de se fazer acreditar, aquele senhor esquecia-se de sua dignidade para imitar uma voz infantil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele me diz assim: fala que minha mãe é um “anzinho”. – ao que identifiquei significar “anjinho”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste instante, seu Jéferson ajeitou levemente seu chapéu de feltro, que lhe dava um aspecto ainda mais simpático, e disse, com um sorriso espontâneo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Agora, ele está segurando sua mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senti um leve toque em minha mão direita. Sobressaltado, recuei. Atônito, aceitei aquela amizade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passei a me encontrar periodicamente com seu Jéferson, que compartilhava comigo sua sabedoria. Na face, as rugas de quem colheu sofrimentos e alegrias lutando por aquilo que acreditava que lhe faria feliz. Mudou de Estado, desafiou duas famílias, moveu céus e terra para conseguir se casar com sua “dona”, que lhe deu três filhos abençoados, que lhe deram netos que, posteriormente, foram “estragados” pelo “avô babão”. Fora uma vida intensa, da qual se lembrava apenas dos bons momentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- As coisas ruins, a gente aprende com elas e esquece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu Jéferson passou a ser importante em minha vida. Falava do “menininho” – a quem eu jamais vira, mas com quem já me acostumara – e conversava bastante, com a sabedoria dos que não passaram ilesos pela vida. Mas seu Jéferson cometeu um pecado gravíssimo: queria me puxar para a vida, quando eu pensava em esmorecer. E não se faz isso com quem quer deixar o barco à deriva. Não se faz isso com um cara “marrudinho”, em cujas veias corre o maldito – ou bendito – sangue italiano do vêneto. Briguei com seu Jéferson, como já desobedeci minha mãe, bati boca com meu pai, me desentendi com meu melhor amigo e discuti com Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A reconciliação partiu dele. Alguns telefonemas com a mesma voz sóbria de sempre e com a sabedoria que lembravam palavras de meu falecido avô (“faça as pazes agora com seu ‘inimigo’, pois quando ele se for tudo o que quiser fazer será em vão”). Tomamos café por mais umas duas ou três vezes, mas ele me ligava com uma certa frequência, me puxando novamente para a vida e trazendo novidades sobre o “menininho”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu Jéferson foi passar as férias de final de ano na casa da filha, em Florianópolis. Levava os netos para caminharem descalços na areia e sentirem a vida pulsando. Continuava a me telefonar com frequência, até que as ligações foram ficando mais raras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste ano, a presença de seu Jéferson continuava a me acompanhar, com a suavidade de um sonho bom. Mas um outro telefonema me despertou para o pesadelo, em uma manhã chuvosa. Do outro lado da linha, uma voz contida e abafada de mulher. A Morte beijara a fronte de seu Jéferson. Partira com a suavidade com a qual sempre caminhou por esta terra. Deixava este plano sem a menor sombra de sofrimento, como uma criança que repousa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- No hospital, no leito de morte, ele só pediu uma coisa: para que ninguém chore por ele. – dizia-me a mulher, sua filha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, caminho solitariamente pelas ruas do centro. Em cada face, procuro, inutilmente, por aqueles olhos suaves de sabedoria. Rodo pelos cafés em que tivemos bons momentos e caminho pelos paralelepípedos que foram testemunhas de nossas conversas e da minha resistência em aceitar seus ensinamentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É domingo ensolarado, como no dia em que fui abordado por aqueles olhos de brilho calmo e familiar. Estou no mesmo cruzamento em que nos conhecemos. A rua está cheia de transeuntes, mas, para mim, é como se estivesse vazia. Silenciosamente, deposito uma rosa, que roubei de um jardim, no ponto exato onde conversamos pela primeira vez. E não derramo uma lágrima sequer.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-731893594766859729?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/731893594766859729/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/02/despedida.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/731893594766859729'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/731893594766859729'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/02/despedida.html' title='Despedida'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/S2oaq9m-GEI/AAAAAAAAAC4/-Wbub07ZnHY/s72-c/rosa.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-2098577714619864422</id><published>2010-01-20T15:42:00.000-08:00</published><updated>2010-01-20T15:54:47.975-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>Da Janela</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/S1eXEGTfMuI/AAAAAAAAACw/GswmLM6N1yo/s1600-h/janela.bmp"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5428973972486042338" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 238px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/S1eXEGTfMuI/AAAAAAAAACw/GswmLM6N1yo/s320/janela.bmp" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;A vida de Jeremias era olhar pela janela. Todos os finais de tarde em que eu passava diante de sua casa, na antiga rua de paralelepípedos que cortava o centro da cidade, lá estava ele, feito uma esfinge, com os cotovelos apoiados em uma almofada bordô surrada, arqueado, contemplando os dias que se seguiam uns aos outros. Os ralos cabelos brancos e curtos sempre cuidadosamente penteados para trás combinavam com o formato ovalado de seu rosto, já desgastado pelas décadas vividas. Invariavelmente, do canto esquerdo da boca de lábios finos, pendia um cigarro de palha em brasas, como um vaga-lume que tenta chamar atenção à luz do dia. O nariz proeminente conferia-lhe um ar mais respeitável do que, de fato, tinha ali, metido em mangas de camisa, debruçado na janela. E seu mundo era aquilo.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Seus olhos, sempre suavizados por uma expressão terna, seguiam meus passos até eu passar pela sua calçada, bem em frente ao ponto em que ele religiosamente se posicionava. Então, eu voltava meu rosto em sua direção e sorria, com um “boa tarde”, ao que ele retribuía com um sorriso singelo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Os cumprimentos rápidos e de passagem foram se transformando em palavras mais demoradas, até se tornarem “dedos de prosa”. Na maioria das vezes, era eu quem ouvia. Sua voz era clara e pausada, com um timbre que denotava lucidez.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- É preciso correr riscos, fio! – dizia ele, criando quase que um bordão. Chegara a esta conclusão da maneira mais dolorida: ao constatar que ele mesmo abdicara de correr seus riscos e de lutar pelo que acreditara que lhe faria feliz.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Em uma de nossas conversas, confidenciou-me que, quando criança, sonhava atravessar a nado o rio que cortava sua cidade. Mas sua mãe, severa que era, lhe proibia sequer de chegar às margens, enquanto os outros moleques se deleitavam na água corrente. Crescera ansiando pelo dia em que se lançaria naquele “Panema” e venceria a correnteza à longas braçadas. Embora os lamentos daquele senhor pudessem soar como algo até banal para quem ouvia, o desejo pueril não saciado ainda o atormentava décadas depois:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Às vezes, fio, eu ainda sonho que tenho nove anos. E me jogo naquela água e sinto aquele riozão gelado em volta de mim, que nem se ele ‘tivesse me abraçando. É uma liberdade tão boa. É como se eu ‘tivesse solto no espaço desse mundão de meu Deus e não existisse mais nada. Mais nada! Mas aí eu acordo suarento e vejo que tudo não passou de um sonho. ‘Tô velho, cansado e já não tenho muita lenha pra queimar nessa vida. É triste chorar nesta idade, sabe, fio? – contava-me, com os olhos mansos denotando um sofrimento implacável que lhe corroia a alma.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E assim, havia sido por toda sua vida. As decisões não tomadas, o eterno “meio-termo” e a decisão de viver sempre à sombra, sem correr riscos, sem lutar, deixando os dias se sucederem uns aos outros. Agora, Jeremias contemplava os dias de uma janela e suas maiores diversões eram contar os carros que passavam diante de sua casa, cumprimentar os passantes ou, quem sabe, conversar com algum jovem que se afeiçoava àquela figura carismática.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Certa vez, combinamos que no próximo verão iríamos às margens do rio, contemplar um pôr-do-sol ao sabor da brisa que sopra na mesma direção das águas. Se seu velho corpo não tinha mais agilidade para se lançar no rio, poderia, ao menos, banhar seus pés e sentir que algo de si é levado pela correnteza, até quem sabe, chegar ao mar. O vislumbre da possibilidade fazia com que Jeremias voltasse no tempo. Agora, parecia ter, novamente, nove anos de idade.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Em uma tarde de primavera, nuvens cinzentas escondiam o sol e o vento simplesmente se abstinha de soprar. De longe, eu forçava as vistas, tentando focalizar a cabeça branca de Jeremias. Uma gota de suor que escorria pela minha testa fez com que eu desviasse minha atenção. Da esquina, constatei que, pela primeira vez em dois anos, a janela aberta estava vazia. No beiral, a almofada bordô e carcomida jazia sozinha. Aquele espaço vazio era uma dura constatação. Engoli seco, enquanto um arrepio frio percorria minha espinha, de cima para baixo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O próximo verão jamais chegaria para Jeremias. Quase ninguém deu falta daquela figura afável, debruçada na janela, com um cigarro de palha a pender no canto da boca, entre um sorriso recortado. Quase ninguém, exceto eu, que sempre me lembro de suas palavras e, silenciosamente, repito-as para mim mesmo:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- É preciso correr riscos!&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;(12/01/2010)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-2098577714619864422?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/2098577714619864422/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/01/da-janela.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/2098577714619864422'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/2098577714619864422'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/01/da-janela.html' title='Da Janela'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/S1eXEGTfMuI/AAAAAAAAACw/GswmLM6N1yo/s72-c/janela.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-5512564179910863172</id><published>2010-01-11T17:24:00.000-08:00</published><updated>2012-01-24T03:45:49.652-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>Palco</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-ddGNZhJapm4/Tx6YPxNyG5I/AAAAAAAABSg/cwG2kQQ--3M/s1600/DSC045591.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5701161574974233490" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 294px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/-ddGNZhJapm4/Tx6YPxNyG5I/AAAAAAAABSg/cwG2kQQ--3M/s320/DSC045591.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;span style="font-family:georgia;"&gt;A luz das lâmpadas que contornavam a penteadeira do camarim iluminava meu rosto e o espelho refletia olhos entre ingênuos e tristes. Em pé, atrás da cadeira em que eu estava sentado, ela parecia estar à vontade, dona da situação. Afagou amigavelmente meus ombros e meus cabelos:&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: georgia; "&gt;- Fiques tranquilo. Vais gostar! - disse ela, com um sorriso contido.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Quis dizer algo que traduzisse minha relutância em acreditar, mas as palavras se recusaram a sair. Pouco adiantaria. Quando dei por mim, ela, maquinalmente, já espalhava de maneira uniforme uma tinta branca pelo meu rosto. A cada retoque, um sorriso vago, como quem se diverte com um brinquedo novo. Impassível, eu me segurava na cadeira, mas não tinha força nem ânimo para contestar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Com um movimento rápido, ela pegou um lápis preto, desses de maquiagem, e se pôs a delinear o contorno dos meus olhos. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;O ato era aflitivo, como se a rapidez com que ela manipulava o instrumento pudesse vazar-me as vistas. Fiz menção de protestar, mas ela se adiantou:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: georgia; "&gt;- Estás ficando lindo!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Quis argumentar, mas, de fato, a cena naqueles bastidores era dela. Pousou o indicador sobre minha boca, como a me cobrar silêncio. Em seguida, pouco a pouco, aqueles lábios silenciados compulsoriamente eram recobertos com uma camada tênue de batom vermelho.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Estás quase pronto!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Antes que eu pudesse me contemplar no espelho, ela me pegou pelas mãos e me levantou. Sempre com o sorriso contido, me conduziu por alguns metros, saltitante. Paramos na coxia.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Não sei se quero... - balbuciei.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Ela, então, como num passe de mágica, me pôs um nariz vermelho e me empurrou bruscamente para o palco. O pano subiu e os refletores se acenderam subitamente. Agora, sou somente eu a protagonizar esta farsa, esta comédia de mau-gosto. Na platéia, todos riem de mim, inclusive aquela me lançou à sorte deste palco. Aquela bela jovem de sorriso contido: a VIDA.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-5512564179910863172?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/5512564179910863172/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/01/palco.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/5512564179910863172'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/5512564179910863172'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2010/01/palco.html' title='Palco'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-ddGNZhJapm4/Tx6YPxNyG5I/AAAAAAAABSg/cwG2kQQ--3M/s72-c/DSC045591.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-1417582783805780100</id><published>2009-12-14T14:54:00.000-08:00</published><updated>2009-12-14T15:04:42.043-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>Seu rio</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/SybDU2FoNuI/AAAAAAAAACg/KgE9FJlXWZM/s1600-h/rio.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5415230364843521762" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 278px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/SybDU2FoNuI/AAAAAAAAACg/KgE9FJlXWZM/s320/rio.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;De repente, você me abraça e pareço voltar a 1993. Seus braços não são necessariamente fortes, mas ao me envolverem sinto segurança e proteção, como jamais senti. É como se todo o medo que sempre tive da minha própria felicidade se evaporasse pelo simples contato com seu corpo. É como se eu pudesse me despir de todas as máscaras que me forcei (ou me forçaram) a usar. Reencontro-me com minha própria essência e, agora, a sinto exalar por todos os meus poros. Transbordo-me do que sempre quis ser.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Em um instante, seus lábios tocam os meus e sinto que cada lacuna do meu ser é preenchida e vem-me, de imediato, uma sensação de completude. Volto a acreditar em Deus e que o Universo sempre conspira a favor do que desejamos. Os versos de Vinícius voltam a me fazer sentido e o cantar de um sábia-laranjeira colore a madrugada com uma poesia para a qual eu já havia fechado os olhos. Como em um devaneio, imagino nosso sobradinho verde, com dois gatos, um vira-lata e duas ovelhas e, diante dessas imagens tão concretas e tão fugazes, te aperto contra mim, como a implorar para que este momento não acabe nunca.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;O colar que te dei se enrosca ao meu – idêntico ao teu –, como se fosse um prenúncio, como se não devêssemos (e/ou não quiséssemos) nos separar jamais. Seu toque é sutil e sinto vontade de gritar bem alto o que sinto. Mas não é necessário. Seria um pleonasmo grosseiro que violaria a beleza da cena. Abraço-te e me agarro aos teus cabelos, quase que desesperadamente, ansiosamente.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Agora, parecemos ser uma coisa só. Mesma matéria, mesma energia. Almas que se tocam, se complementam. Flutuo. Pareço tocar o céu e sentir a presença de Deus. Tudo parece fazer sentido. Todos os mistérios da vida parecem desvendados ou pequenos demais para que eu me ocupe deles. Neste momento, sei que todas as lágrimas que já derramei valeram e pena, que todas as pedras que tive que retirar do meu caminho não foram em vão: foram em função deste momento e para que eu te encontrasse.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Lembro-me de suas provas de amor. Não seriam preciso. Te amo, simplesmente. Amo a maneira doce como me olha, como se sempre tivesse esperado por mim. Amo suas mãos que me tocam com um misto de sede, posse e com a delicadeza de quem está em contato com algo que lhe é sagrado. Amo a sua capacidade de escolher a música exata para traduzir cada momento. Amo seu sorriso de canto de boca e suas mãos macias. Amo suas certezas e o seu eterno insistir em me puxar p’ra cima.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Seu cheiro está impregnado em meu corpo, como sua presença está em minha vida. Em um lampejo, vem à tona você ao violão. A voz desafinada, os acordes malfeitos, os versos literariamente pobres... mas, Deus, que delícia! Os cafés da manhã em padarias medianas, os chás que se estendem madrugadas à dentro. Todas as noites que não dormimos abraçados e o filho que ainda não tivemos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Se tudo é perfeito, porque sinto tanto medo? Agora, me apavoro com a possibilidade da felicidade, que, concreta, sorri para mim de perto. Por que não consigo aceitar tudo como uma bênção? Por que, se lá fora a lua espera pelas nossas preces e as estrelas cadentes passam, lindas, e não estamos lá para vê-las? Por que minha essência volta a se dissipar quando desvio olhar de ti e volto a me sentir indigna de novo? Por que, se te amo e se a única certeza que tenho é de que vim à vida para ti?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Certa vez, te vi subir no ponto mais alto de uma pedra e, de lá, se atirar de braços abertos num rio verde, que vinha do Oeste. Você mergulhava por alguns segundos e depois voltava à tona. Sorria e me acenava, com um sorriso nos olhos. Você não aparentava medo algum e ter o corpo completamente envolto e em contato com aquela água límpida parecia te fazer bem.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Sua vida é esse rio. Estou no ponto mais alto da pedra, prestes a me jogar... de braços abertos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segunda-feira – 14/12/09 – 20h48&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-1417582783805780100?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/1417582783805780100/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2009/12/seu-rio.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/1417582783805780100'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/1417582783805780100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2009/12/seu-rio.html' title='Seu rio'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/SybDU2FoNuI/AAAAAAAAACg/KgE9FJlXWZM/s72-c/rio.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-3180630487762843625</id><published>2009-12-09T15:23:00.000-08:00</published><updated>2009-12-09T15:27:43.364-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Versos'/><title type='text'>Duas vias</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/SyAyMZcqn3I/AAAAAAAAACY/H4pjlGdoUwE/s1600-h/o+grito.bmp"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5413381940670275442" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 247px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/SyAyMZcqn3I/AAAAAAAAACY/H4pjlGdoUwE/s320/o+grito.bmp" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Sua rotina tem cheiro de roupa secada à sombra,&lt;br /&gt;Seus dias, a graça de primavera sem flores,&lt;br /&gt;Desviando o olhar da vida, representando como atores.&lt;br /&gt;Fotos em sépia, cavalos na rédea.&lt;br /&gt;Pratos na mesa, todos sem sabores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essência padronizada: nem a favor nem contra&lt;br /&gt;Esperança com aspecto pastoso de preguiça.&lt;br /&gt;Os pés no passado, olhos no futuro: submissa.&lt;br /&gt;Descarta o presente e a vida inteira desperdiça.&lt;br /&gt;Músicas comerciais, políticas assistenciais.&lt;br /&gt;Floresta sem bússola, areia movediça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cria realidades, elabora um morno faz de conta.&lt;br /&gt;Se prende a vaidades, com o brilho de flores artificiais.&lt;br /&gt;Se apega ao mediano e despreza bens essenciais.&lt;br /&gt;Prefere ser coadjuvante a viver as cenas principais.&lt;br /&gt;Barco à deriva, conjunção concessiva.&lt;br /&gt;Fechar os olhos nos momentos cruciais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prefiro a intensidade, o toque da melodia.&lt;br /&gt;Quero a liberdade renovada a cada dia.&lt;br /&gt;Troco a banalidade por uma dose de ousadia.&lt;br /&gt;Perco a sanidade, nunca a poesia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;03/12/2009 – 23h45&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-3180630487762843625?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/3180630487762843625/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2009/12/duas-vias.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/3180630487762843625'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/3180630487762843625'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2009/12/duas-vias.html' title='Duas vias'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/SyAyMZcqn3I/AAAAAAAAACY/H4pjlGdoUwE/s72-c/o+grito.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-3742423693714995093</id><published>2009-11-23T15:41:00.000-08:00</published><updated>2009-11-23T15:48:27.913-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>Velório</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;O ocre da parede dava ao prédio do Velório Municipal um aspecto ainda mais insípido naquela tarde de sol a pino. À sombra de algumas árvores, próximo ao portão de entrada, dezenas de pessoas se aglomeravam. Algumas, de óculos escuros, não conseguiam conter as lágrimas e irrompiam em soluços angustiados, enquanto outros as amparavam. O calor parecia tornar a cena mais aflitiva e o sofrimento, ainda maior.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando cruzei o beiral de entrada, percebi que havia mais gente do que, do lado de fora, parecia. À esquerda, um pequeno grupo contava anedotas e tentava conter o riso ao final de cada piada. Lamentei, sacudindo veementemente a cabeça: sempre achei falta de respeito para com o finado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;À porta que dava acesso ao interior do prédio, duas senhoras assinavam um caderno, afixado em uma espécie de pedestal prateado. Tratava-se de uma lista de presença. “Mau gosto!”, pensei, virando o rosto para outra direção, para não ter que grafar meu nome naquelas páginas. Do outro lado, três belas garotas tinham os olhos vermelhos e tristes perdidos em algum ponto do infinito, em outra dimensão quem sabe. As feições delas não me eram estranhas, mas adentrar aquele recinto me causava dor de cabeça, o que fez desistir de tentar lembrar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Lá dentro o som dolorido do pranto ecoava pelo ambiente, como uma melodia angustiante. Fiz menção de virar-me e sair, mas mantive o passo. Com um movimento de cabeça, cumprimentei algumas senhoras que moravam à rua de minha casa, na época de minha infância, mas, talvez em função do volume de pessoas que se apertavam ali, elas não tenham me visto. Havia muitos anos que eu não as via. Embora o tempo tivesse agido sobre elas, lembrei-me daqueles semblantes familiares de uma época tão boa.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Na sala principal, o cheiro de vela se mesclava ao perfume excessivamente forte das flores. De relance, notei que havia muitas coroas de flores, mas evitei olhar para elas. Não gosto! De costas para quem entra, o padre terminava de puxar o terço, seguido por uma série de velhas beatas. Baixei a cabeça e, esperei respeitosamente, ora rezando, ora me perdendo involuntariamente em devaneios.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando cheguei perto, vi meus irmãos abraçados. O mais novo tinha a cabeça apoiada no ombro do mais velho. Abraçada ao seu namorado, minha irmã evitava olhar para o féretro. À direita, minha mãe chorava convulsivamente um pranto seco, que já não tinha lágrimas, enquanto meu pai, como sempre fora, tentava se manter firme, embora devesse estar debulhado por dentro. Neste instante, minha cabeça começou a rodar. Inconcebível ver num vale de lágrimas as pessoas a quem eu mais amo. Fui tomado de uma tontura súbita. Quis ir em direção a minha família e abraçar a cada um deles. Mas, neste momento, foram fechar o caixão. Foi então que percebi que o morto era eu.&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-3742423693714995093?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/3742423693714995093/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2009/11/velorio.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/3742423693714995093'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/3742423693714995093'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2009/11/velorio.html' title='Velório'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-481593287929767184</id><published>2009-10-28T17:59:00.000-07:00</published><updated>2009-11-04T06:50:37.721-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>Barquinho de papel em poça d'água</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/Sujp-tQWXlI/AAAAAAAAACI/yvaNYRkG7_g/s1600-h/noiva_rio_tratada1.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5397821416912870994" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 194px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/Sujp-tQWXlI/AAAAAAAAACI/yvaNYRkG7_g/s320/noiva_rio_tratada1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Os acordes iniciais da marcha nupcial ecoaram pela igreja, enquanto os convidados se levantaram, voltando-se à porta de entrada. A mão direita, que segurava um buquê de rosas amarelas, tremia denotando nervosismo. O cheiro das flores – tanto as dos arranjos da decoração, quanto as que segurava – lhe parecia demasiado forte e lhe incomodava, provocando um principio de ânsia.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Tentava manter a cadência dos passos, mas já não tinha controle sobre as próprias pernas. Enquanto tentava retribuir o sorriso afável dos convidados, que se encantavam com sua beleza, ela sentia uma gota de suor descer, lenta e irritantemente, pelas suas costas. Diante dos olhares de todos, tinha a sensação de estar terrivelmente solta no espaço.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O salto dos sapatos perfeitamente brancos provocava um ruído contínuo, que martelava incessantemente sua cabeça. O canto direito de sua boca tremia – imperceptivelmente aos olhos dos presentes –, mas aquilo, de tentar dominar a reação involuntária, a deixava ainda mais nervosa. E ela sabia que aquilo não era mero desconcerto diante da consumação de um ato importante e feliz. Estava em pânico!&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Se sempre sonhara com aquele momento, porque não conseguia desfrutar como todas as outras noivas do mundo? Se tudo estava como planejava – a música, o vestido, os cabelos, os convidados, a igreja, a decoração, o buffet, ... – porque não conseguia se sentir feliz?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando chegou à metade do corredor da igreja, avistou o homem com quem se casaria. Seus batimentos cardíacos se aceleraram e seu riso forçado se tornou um breve soluço. Ele estava lá, belo, em um fraque cinza, com os cabelos indefectivelmente penteados. Mas não era ele a quem amava.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;“É um homem bom”, pensou consigo mesma, como a criar coragem para terminar o que havia começado. Tentava se fixar na vida morna que teria. Entretanto, também seriam tempos sem emoções, sem cor, sem sabor, sem grandes alegrias, com os dias se sucedendo um ao outro, enfim, uma vida sem amor.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Lembrou-se de que quando criança seu pai sempre lhe fazia barquinhos de papel, mas não deixava que os soltasse no riacho que corria perto de sua casa. Poderia ser perigoso. Assim, ela tinha que brincar com as dobraduras nas poças que se acumulavam após as chuvas. Mas aquilo não tinha graça nenhuma! A brincadeira perdia todo o encanto e a poesia. Era a imagem perfeita para aquilo que vivia naquele instante.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Gostava de imaginar os barcos desbravando mares desconhecidos, vencendo monstros marinhos e tempestades. Não naquela pasmaceira provocada pela água ali, inerte.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5397821714333096690" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 214px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/SujqQBO22vI/AAAAAAAAACQ/1CSZ6pZlgFk/s320/Paper_Boat_by_Eredel.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;Em um átimo de segundo, o filme de sua vida passou diante dos seus olhos. Perguntava-se quando foi que havia desistido da felicidade, de singrar os mares e conhecer terras e continentes maravilhosos, para navegar em poças d’água. Se fosse para se afundar, que fosse em um oceano azul, não em um filete de água suja.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sua mão parou de tremer e, de repente, se sentia de volta à vida. Ainda titubeou por um instante, mas, com um gesto rápido tirou a grinalda que ornamentava seus cabelos, enquanto dava meia volta. Deixou que o buquê de rosas amarelas caísse no chão, e começou a caminhar decididamente, em direção a porta. Conforme andava, seu passos se tornavam mais rápidos e decididos. Seu rosto sorria um riso de liberdade. Agora, corria em direção a outro futuro. E o amor de suas vidas haveria de estar a esperando em algum lugar lá fora. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-481593287929767184?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/481593287929767184/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2009/10/barquinho-de-papel-em-poca-dagua.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/481593287929767184'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/481593287929767184'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2009/10/barquinho-de-papel-em-poca-dagua.html' title='Barquinho de papel em poça d&apos;água'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/Sujp-tQWXlI/AAAAAAAAACI/yvaNYRkG7_g/s72-c/noiva_rio_tratada1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-2392174004070666697</id><published>2009-10-16T18:02:00.000-07:00</published><updated>2009-10-16T18:09:50.426-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>Dia das Crianças</title><content type='html'>&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/StkYkGqzAnI/AAAAAAAAAB4/syEVU_ioug8/s1600-h/crian%C3%A7as.bmp"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5393369037297353330" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 300px; CURSOR: hand; HEIGHT: 316px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/StkYkGqzAnI/AAAAAAAAAB4/syEVU_ioug8/s320/crian%C3%A7as.bmp" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;A saraivada de rojões que rebentavam no céu, saudando o dia de Nossa Senhora, acordou Wandermar de maneira ríspida. Num sobressalto, ele se sentou na cama, com o coração disparado. Com suas mãos pequeninas, esfregou os olhos continuamente, na expectativa de afugentar as imagens ruins que os estrondos restauraram em sua mente. Lembrara-se de quando se espremia em um barraco na periferia com o que deveria ser sua família e, não raramente, era despertado no meio da noite por barulho de tiros. Naquelas ocasiões, enfurnava-se debaixo da cama, com os berros abafados pela mão de seu irmão mais velho, que rezava para que nenhuma das balas varasse as paredes improvisadas de compensado de madeira.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;As lembranças foram varridas definitivamente pela entrada de uma das freiras, que chegava para despertar os quatro meninos que dormiam naquele quarto do orfanato. Além de dia da padroeira, era Dia das Crianças, por isso os pequenos levantaram-se rapidamente, com sorrisos coloridos estampados nos já sofridos rostos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Todos, exceto Wandermar. Vestiu-se com vagar e ensaiou um resmungo quando a freira veio lhe ajudar a calçar as meias e os sapatos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Vamos Wandinho! Hoje é um dia especial!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Meu nome é Wandermar... e já tenho sete anos. – protestou o garoto, mas permitindo que a mulher atasse os cadarços dos sapatinhos já surrados.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Não via nada de especial naquele dia. Pelo contrário. Achava um “quê” de ridículo em toda aquela algazarra vã. Não gostava de ver as paredes do prédio, cinzentas e descascadas, recobertas por desenhos coloridos e mal-pintados pelos seus colegas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Precocemente amargo, achava tudo aquilo falso. Desde a alegria exagerada de seus amiguinhos ao sorriso solícito das madames que, uma vez por ano, iam ao orfanato distribuir presentes. Não gostava de alegrias efêmeras, porque ele sabia que quando passassem, tudo seria como sempre foi: eles, desgraçados, naquele lugar úmido e cinza, enfrentando as mesmas dificuldades de sempre.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Uma senhora loira, de cabelo tingido, presenteou-lhe com uma bola. Mas que diabos! Não gostava de futebol. Ao contrário de Wandermar, os outros meninos se deleitavam com os presentes, corriam, brincavam, como se aquele dia não fosse acabar nunca.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Wandermar chegou a se divertir quando os palhaços se apresentaram em um palquinho improvisado no pátio principal. Wandermar chegou a se deliciar quando serviram o almoço, com direito a strogonof de carne. Wandermar chegou a se esquecer de que era pobre e que tinha uma mãe alcoólatra que o queimava com a ponta acesa do cigarro, que lhe surrava com o fio do ferro e que o abandonara. Wandermar chegou a sorrir e a achar o prédio de seu orfanato bonito (com as paredes decoradas com os desenhos).&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Mas após o almoço, tiraram rapidamente a mesa. Já não havia mais palhaços e as senhoras bem-vestidas que distribuíram presentes cruzavam o portão, em direção à saída. No chão do pátio, papéis de embrulhos jaziam amassados, acompanhados de um silêncio sepulcral. Na entrada do pátio, as letras coloridas que formavam a expressão “Feliz Dia das Crianças” eram o resquício mais exato do que havia sido uma festa.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Tudo voltara a ser como antes. As paredes voltaram a ser cinzentas e carecendo de pintura, o ar úmido pesava e a tarde caía, complementando uma sensação de desolação. Os meninos dormiam felizes. Todos, exceto Wandermar. Para ele, a realidade voltava a ser dura e afiada. Novamente, lembrava-se de que era pobre, abandonado e que ninguém se preocuparia com ele... ao menos até o próximo Dia das Crianças. Chorou em silêncio. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5393369327130795794" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 297px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/StkY0-YeXxI/AAAAAAAAACA/vNLgTZwXPao/s320/Menino_triste4_conto_1.JPG" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-2392174004070666697?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/2392174004070666697/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2009/10/dia-das-criancas.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/2392174004070666697'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/2392174004070666697'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2009/10/dia-das-criancas.html' title='Dia das Crianças'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/StkYkGqzAnI/AAAAAAAAAB4/syEVU_ioug8/s72-c/crian%C3%A7as.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-4385381680643170321</id><published>2009-10-05T16:56:00.000-07:00</published><updated>2009-10-05T17:15:01.613-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>O sabiá e a igreja</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/SsqIHPvgLNI/AAAAAAAAABw/GKh7-jzRCHg/s1600-h/DSC02985.JPG"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5389269562168454354" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 240px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/SsqIHPvgLNI/AAAAAAAAABw/GKh7-jzRCHg/s320/DSC02985.JPG" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt; O largo era um dos pontos históricos daquela cidade. Casarões seculares, com beirais ornamentados e com altas portas e janelas esculpidas em madeiras nobres, se mostravam impávidos, resistindo ao passar do tempo. O chão, de pedras portuguesas bem colocadas e recendendo a História, lembrava os passantes de um tempo que já se foi. Às esquinas, algumas igrejas permeadas de seus valores históricos e artísticos, que se mostram, ainda hoje, como símbolos remotos de poder.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Sentado à beira de uma fonte, ao centro do largo, o rapaz se punha a observar uma dessas edificações. A tarde passava calmamente por sobre ele, com um sol ameno a lhe fazer tímida companhia, enquanto um vento suave lhe pronunciava ao ouvido que a noite seria fria.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Seus pensamentos foram interrompidos por uma revoada de pombas, que arulhava um som monocórdico. Eram dezenas delas – e faziam uma algazarra digna de final de domingo –, mas foi um único pássaro, em especial, que chamou a atenção do rapaz. Tratava-se de um pequeno sabiá.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Num balé desengonçado, a singela ave caminhava, ora lenta, ora rapidamente, em direção à porta lateral da igreja. Parava no meio do caminho, balançava a cabeça e recuava, como se desistisse da empreitada. Pouco depois, eriçava as penas, saltitava e voltava a marchar em direção à entrada. Subia um dos quatro degraus que davam acesso ao interior do templo, mas tornava a desistir, como se aquilo não fora feito para ele.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ao longo de cinco minutos, o sabiá permaneceu neste impasse e, conforme o tempo passava, a cena se tornava mais aflitiva. O rapaz, agora, torcia com todas as suas forças para que o pássaro vencesse seus medos e alcançasse seus objetivos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Também ele, o rapaz, já tivera vários medos, mas enfrentou a todos. Na sabedoria de seus anos vividos de forma intensa, concluiu que a dor e as lágrimas fazem parte do caminho, mas também que o final é sempre belo, recompensador e redentor.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O rapaz voltou novamente sua atenção ao sabiá, que disparava a passos rápidos e compassados. De um ímpeto, o pássaro venceu um, depois outro dos degraus. Parou e olhou para os lados, como quem procura força para seguir adiante. Por fim, mais dois degraus. Pronto! Havia conseguido: estava dentro da igreja.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;De seu lugar, o rapaz sentia seu coração se encher de alegria. Seus olhos marejados de água viram o pássaro dar alguns passos igreja à dentro e descrever uma volta em torno de si mesmo, como quem se certifica da glória que acabara de conquistar. O que terá visto? A igreja lotada de fiéis? Os belos afrescos do teto? As esculturas sacras e as imagens de santos, que exalavam paz? As pinturas que retratavam cada uma das quinze estações da via-crucis?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A pequenina ave se voltou para o lado de fora da igreja e, do último degrau do templo, contemplou o largo por uns instantes. Pouco tempo depois, abriu as asas e voou, perdendo-se no horizonte. O rapaz se lembrou de que, quando criança, queria ser um pássaro para voar até o Cristo Redentor e contemplar aquela bela vista. Na ocasião, seu pai lhe dissera que pássaros têm “cabeça pequena” e que não apreciam as mesmas coisas que o homem.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O rapaz então concluiu que aquela conquista pouco deve ter representado à pequena ave. Em seu íntimo, agradeceu a Deus por ser um homem – e não um pássaro: sabia dos riscos que sempre corria (e agradecia sempre que optava por corrê-los) e saboreava as mínimas vitórias com dignidade.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-4385381680643170321?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/4385381680643170321/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2009/10/o-sabia-e-igreja.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/4385381680643170321'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/4385381680643170321'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2009/10/o-sabia-e-igreja.html' title='O sabiá e a igreja'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/SsqIHPvgLNI/AAAAAAAAABw/GKh7-jzRCHg/s72-c/DSC02985.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-6510744847983250323</id><published>2009-09-24T16:05:00.000-07:00</published><updated>2009-09-24T17:41:42.769-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Versos'/><title type='text'>Cinza</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/Srv7gWyK5rI/AAAAAAAAABo/JeRmRXdDKZo/s1600-h/superman.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5385174312741955250" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 233px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/Srv7gWyK5rI/AAAAAAAAABo/JeRmRXdDKZo/s320/superman.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:arial;font-size:130%;"&gt;Meu quarto vazio&lt;br /&gt;É a medida exata&lt;br /&gt;Da minha solidão.&lt;br /&gt;Meus lábios partidos&lt;br /&gt;Pelo tempo frio,&lt;br /&gt;O cinza do dia&lt;br /&gt;Estampado em meu sobretudo:&lt;br /&gt;São tudo o que sobrou.&lt;br /&gt;E sobre tudo o que eu era&lt;br /&gt;Pouca coisa restou&lt;br /&gt;Ou me interessa.&lt;br /&gt;Sem essa!&lt;br /&gt;A barba por fazer,&lt;br /&gt;A vida por levar:&lt;br /&gt;“De quem é essa cara no espelho?”&lt;br /&gt;“Em que mês estamos:&lt;br /&gt;Novembro ou janeiro?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A capa de Superman&lt;br /&gt;Que eu usava em minha infância&lt;br /&gt;DESBOTOU!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-6510744847983250323?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/6510744847983250323/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2009/09/cinza.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/6510744847983250323'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/6510744847983250323'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2009/09/cinza.html' title='Cinza'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/Srv7gWyK5rI/AAAAAAAAABo/JeRmRXdDKZo/s72-c/superman.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-5417806990190293176</id><published>2009-09-16T15:20:00.000-07:00</published><updated>2009-10-05T17:17:48.948-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>Début</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/SrFxeLbc_0I/AAAAAAAAABg/WSdPfslzl00/s1600-h/puta.bmp"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5382207792962404162" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 248px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/SrFxeLbc_0I/AAAAAAAAABg/WSdPfslzl00/s320/puta.bmp" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;span style="font-family:arial;"&gt;Ela tentava desviar sua atenção daquilo que vivia naquele instante, por isso esforçava-se para se concentrar no canto embolorado no alto da parede. Mas, de quando em quando, involuntariamente e de relance, olhava para o espelho ordinário do teto e via sobre sua imagem refletida um corpanzil macilento, a se mover brutal e afobadamente. A delicadeza de seus traços contrastava extremamente com a crueza animalesca dos gestos do homem, que penetrava com violência o seu sexo, lubrificado artificialmente por um gel à base de água (posto que não sentia prazer nenhum naquela conjunção). Pelo reflexo, conseguia notar os pelos brancos que irrompiam das costas daquele que se servia de seu frágil corpo de menina. Mas ela se lembrava de que já não era uma menina: era uma puta!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Tentava fixar seu pensamento em algo que justificasse aquele flagelo. Passava-lhe pela mente a imagem de seu irmãozinho mais novo, chorando faminto à soleira da porta do casebre da periferia em que moravam. Mas, que diabos, ela não tinha irmãos e sempre morou no mesmo bairro de classe média! Se tivesse enfrentado dificuldades, se tivesse sido a protagonista de uma história triste (se fosse de família pobre, se apanhasse do pai ou tivesse algum caso de doença grave na família) talvez o ato a que se submetia ganhasse contornos de nobreza. Mas não. Se, por um lado, nunca teve tudo que quis, por outro nunca havia passado por sérias privações. Mas agora, se entregava a um velho de 57 anos por R$ 300. Preferia aquilo a seguir o destino de suas amigas e trabalhar duro o mês inteiro por um salário mínimo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Suas divagações foram interrompidas por gotas de suor que minavam do rosto do homem e pingavam sobre seus seios. O velho arfava e jogava a cabeça para trás, reclinado sobre aquele delicado corpo de quarenta e nove quilos. O látex do preservativo em atrito contínuo com seu órgão ressequido lhe causava irritações, mas a dor parecia não importar. Sentia asco de si mesma e, por isso, a expiação física abrandava os sofrimentos de sua alma.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Não conseguia fingir prazer, como lhe aconselharam, horas antes, suas agora colegas, segundo as quais, gemidos, sussurros e frases de efeito bem colocadas apressam o clímax dos homens e abreviam o “trabalho”. Não conseguia. A inexperiência exalava por seus poros.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O ruído contínuo da barriga pelancuda do homem contra seu corpo a incomodava. O contato com aquela pele excessivamente oleosa lhe causava náuseas e calafrios. Quanto maior o prazer que involuntariamente proporcionava ao seu “cliente”, mais descartável se sentia. Nojo!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Enfim, aquelas mãos peludas e pesadas agarram-se exasperadamente aos seus cabelos. Ela sentia que o ritmo das arfadas se intensificava, assim como as gotas de suor que embanhavam seu corpo, aumentando a repugnância que sentia de si mesma. Um grito monocórdico indicava que seu primeiro calvário chegava ao fim. O velho saiu de dentro de seu corpo e tombou ao seu lado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ela permanecia impassível, na mesma posição: pernas abertas, olhando para o teto. Era como se sua alma, dolorida pelo que acabara de fazer, tivesse abandonado o corpo.&lt;br /&gt;O homem se levantou e se vestiu, sem olhar para ela. Penteou-se com um sorriso irônico e, após vestir o paletó, virou para ela e cuspiu no chão:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Você é gostosinha, mas tem que aprender a mexer mais, meu bem.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Jogou um maço de dinheiro sobre a cama (seis notas de R$ 50) e saiu do quarto, que agora parecia enorme. Ela pôs se em posição fetal e assim permaneceu por um instante, numa tentativa vã de voltar no tempo e apagar tudo o que acabara de viver. Por fim, levantou-se maquinalmente e procurou se recompor. Pôs sua roupa lentamente e, por fim, meteu o dinheiro no compartimento interno de sua bolsa.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Não chorava. Não derramou uma lágrima. Mas sua alma estava em frangalhos. Embarcara em uma viagem sem volta e jamais seria a mesma pessoa.&lt;/span&gt; &lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/SrFk51lG2-I/AAAAAAAAABY/mGUF8La2fXc/s1600-h/puta.bmp"&gt;&lt;/div&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5382193974482492386" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 1px; CURSOR: hand; HEIGHT: 1px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/SrFk51lG2-I/AAAAAAAAABY/mGUF8La2fXc/s320/puta.bmp" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-5417806990190293176?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/5417806990190293176/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2009/09/debut.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/5417806990190293176'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/5417806990190293176'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2009/09/debut.html' title='Début'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/SrFxeLbc_0I/AAAAAAAAABg/WSdPfslzl00/s72-c/puta.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-3012864745528898855</id><published>2009-09-09T15:06:00.000-07:00</published><updated>2009-10-05T17:20:04.566-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>Ranulfo</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/Sqgno6fAiEI/AAAAAAAAABQ/w4lILzXUllE/s1600-h/ranulfo.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5379593338741622850" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 194px; CURSOR: hand; HEIGHT: 293px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/Sqgno6fAiEI/AAAAAAAAABQ/w4lILzXUllE/s320/ranulfo.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Coitado! - disse Thereza, de forma quase sussurrada, seguida de um gesto mecânico: enquanto levava a mão esquerda à boca – como se isso reforçasse a pena que a cena lhe causava –, a mão direita, automaticamente, metia-se no bolso do casaco, vasculhando por algumas moedas, que depositou em uma caixa de sapatos, à frente do homem.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Thereza não depositava moedas em caixas de papelão porque sentia pena. Ela o fazia, por que, em sua consciência, isso – de dar pequenos valores monetários a quem aparentemente precisa – a eximia de qualquer responsabilidade direta sobre fenômenos sociais. É como se Deus tivesse distribuído parcelas de desgraça pelo mundo e ela, Thereza, escapasse incólume. À noite, ainda, podia sentar-se na sala de seu vasto apartamento já quitado, ao calor aconchegante proporcionado pelo aquecedor a óleo recém-comprado, e comentar com seu marido o quanto o governo é incompetente para lidar com questões sociais e sobre a gama de desgraçados que se multiplicam pelas ruas. As esmolas com as quais habitualmente contemplava esses “coitados” faziam com que Thereza se sentisse bem consigo mesma e evitava eventuais culpas em virtude do escasso conforto de que dispunha. Mas Thereza não sabia disso.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O miserável daquela manhã fria de junho era um homem de setenta e poucos anos. Ranulfo era seu nome, mas ele já não se lembrava disso, pois eram tantos (e cruéis) os adjetivos com os quais se referiam a ele (“coitado” foi considerado o mais leve naquele dia), que aquele senhor acabava se esquecendo do substantivo próprio pelo qual sempre o chamaram.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando criança, Ranulfo apaixonou-se por uma garotinha sardenta e magricela, que morava à rua de sua casa. Ele sonhava em ser cantor de rádio, conquistar fama e dinheiro para impressionar sua amada e casar-se com ela. Queria estar preparado para quando a oportunidade aparecesse, por isso mantinha (em segredo) um caderno de poesias, que musicaria quando fosse cantor, tornando-as os maiores sucessos do país.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, poesias alimentam a alma, mas não enchem o bolso de dinheiro, e Ranulfo, aos nove anos de idade, se viu obrigado a trabalhar. Passava os dias a perambular, com uma caixa de madeira às costas, oferecendo seus préstimos como engraxate aos endinheirados senhores que trabalhavam no centro da cidade. Todavia, como tino comercial e sensibilidade raramente andam juntos, Ranulfo não obteve êxito em seu ofício. Perdia-se em devaneios e os poucos clientes que conseguia, não sabia como cativá-los.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ao final do dia, levava parcas moedas para a casa e, em retribuição, recebia uma surra de seu pai, que queria pôr “um pouco de juízo” na cabeça “avoada” de Ranulfo e que dizia que aquelas cintadas haveriam de doer menos que os revezes que a vida haveria de legar àquele “borra-botas”.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Assim, Ranulfo aprendeu a crescer sufocando diariamente os seus sonhos. Ninguém pôde ler seus versos, pois ele jogou seu caderno secreto no riacho que corria próximo ao campinho de futebol. Quando sua voz de homem se formou – forte e grave, contrastando com seu porte franzino – guardou-a para si e não mostrou a ninguém a beleza de seu timbre e sua potência.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Nesta época, a magricela sardenta desabrochara, transformando-se na mais bela garota do bairro. Mas Ranulfo – embora pudesse tê-la conquistado com uma serenata ou declamando seus versos com aquele vozeirão – já havia precocemente desistido de seus sonhos, de modo que, dois anos mais tarde, a garota começaria a namorar um distinto rapaz, que dirigia um Ford azul.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O fracasso começou a acompanhar Ranulfo pelo resto de sua vida. Nunca mais escreveu versos, passou a ir mal na escola, encontrou um emprego – de contínuo – com o qual ganhava o exato para sua subsistência e, com o passar dos anos, casou-se com uma mulher que não amava tampouco admirava. Passava pela vida como um espectador, que vivia uma vida insossa e sem riscos, a pensar no que poderia ter sido e não foi – talvez por ter sido apartado desde muito cedo do que acreditava que lhe traria felicidade.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Mas agora, Ranulfo tem setenta e poucos anos. Agora, Ranulfo mora em uma casa de quatro cômodos, com uma mulher – que não ama nem admira e que foi incapaz de dar-lhe os tão sonhados “herdeiros”. Agora, Ranulfo cruza diariamente o portão de sua casa, deixando sua dignidade de lado. Agora, Ranulfo mete-se em um paletó xadrez desengonçado e com ombreiras, enfia um chapéu de palha mal-acabado na cabeça e entra em um ônibus, rumo ao centro da cidade.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Chegando lá, ele escolhe um ponto aleatoriamente (sabendo que não é bom ficar sempre no mesmo lugar, pois deixa de ser “novidade”), desembainha um arremedo de instrumento de cordas, posiciona estrategicamente uma caixa de sapato à sua frente e inicia um interminável ritual de auto-humilhação, pago com moedas provenientes da suposta compaixão das pessoas.&lt;br /&gt;Ranulfo finge que toca o instrumento de cordas (sem cordas), enquanto suas pernas velhas e cansadas se movimentam em uma semi-dança patética. De sua garganta, não sai aquele vozeirão que escondeu ao longo de toda sua vida, mas um esgar que confere à cena um tom ainda mais imbecil.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O nariz de Ranulfo parece tornar-se ainda mais proeminente e seu bigode branco acompanha o contorno de sua boca, que se rasga em um riso débil, mostrando involuntariamente a todos que lhe faltam dentes à boca. Neste instante, ele já se despiu completamente de seu ar respeitável de antes, para tornar-se alvo da caridade alheia, motivo de chacota entre os colegiais e um ícone de até onde pode um ser humano descer.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Aos mais sensíveis, os olhos de Ranulfo denunciam que aquele ato machuca-lhe a alma. Mas, além das moedas, ele precisa se punir diuturnamente por algo que não sabe exatamente o que é (talvez por ter desistido de seus sonhos).&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Neste domingo, o centro da cidade está cheio de famílias que aproveitam o dia de folga para passear. Enquanto Ranulfo encena sua tragicomédia, do outro lado da rua, uma outra cena chama-lhe a atenção. Um pai – a julgar pelas roupas, também não tão bem-sucedido quanto ele – abre os braços para seu filho, que está a cerca de três metros. A criança deve ter pouco mais que um ano de idade e suas perninhas ainda não adquiriram a firmeza necessária para dar os primeiros passos. Mas como seu pai sorri afavelmente, o menininho tenta equilibrar-se e ir em direção ao pai. Vencida a pequena – mas grande – distância, o homem pega o filho em seus braços, beija-o demoradamente no rosto e o joga repetidas vezes para cima, fazendo uma grande festa para comemorar o feito da criança.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A simplicidade da cena (a perseverança da criança, o amor do pai, a vitória de ambos) provoca uma reação interior em Ranulfo. Quando foi que desistiu de si mesmo? Quando passou a optar pelo médio, se o mediano não lhe satisfaz? Por que fez o que fez com sua vida? Por qual motivo se humilhava diariamente por algumas moedas? Por que optou viver de migalhas?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ranulfo lembra-se de que já tem setenta e poucos anos e que é impossível, a essa altura da vida, fazer grandes realizações. Mas já abdicou demais de si mesmo e quer um final digno, um final que ele mesmo escreverá, por meio de suas próprias escolhas. E como um milagre que acontece todos os domingos, ele para com sua dança ridícula (no instante em que um senhor deposita uma nota de dois reais em sua caixa de sapatos). Tira seu chapéu e, com o seu ar respeitável de outrora, caminha com dignidade, deixando para trás uma vida de humilhações e um semi-círculo de pessoas supostamente compadecidas ou que simplesmente estavam ali para troçar daquele velho “louco”. Ranulfo acaba de decidir que voltará a escrever versos e os venderá em pequenas estrofes, enrolados em delicadas rosas. Voltará a ser ele.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Jogou o instrumento de cordas (sem cordas) no lixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-3012864745528898855?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/3012864745528898855/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2009/09/ranulfo.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/3012864745528898855'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/3012864745528898855'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2009/09/ranulfo.html' title='Ranulfo'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/Sqgno6fAiEI/AAAAAAAAABQ/w4lILzXUllE/s72-c/ranulfo.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-1841795413802318563</id><published>2009-09-01T18:24:00.000-07:00</published><updated>2009-10-05T17:21:46.584-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='artigos'/><title type='text'>A vez dos gordinhos</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/Sp3K6_d-bHI/AAAAAAAAABI/xfnMeGE_2OA/s1600-h/Gustavo_Duarte_-_Ronaldo_no_Corinthians.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5376676644968623218" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 242px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/Sp3K6_d-bHI/AAAAAAAAABI/xfnMeGE_2OA/s320/Gustavo_Duarte_-_Ronaldo_no_Corinthians.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Centroavante. Você ouve a palavra e logo imagina um tipo de porte atlético, esguio, capaz de, com a agilidade de um felino, deixar para trás o beque-central, se livrar do quarto-zagueiro com um corte seco e decidir uma partida com leveza e facilidade.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Nem sempre, meus caros. De tempos em tempos, aqueles com uns quilinhos a mais (e por que não dizer “gordinhos”?) e sem aptidão aparente para o posto de “matadores” se sobressaem e subvertem o esteriótipo de centroavante alto, magrinho... “em forma”.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;É o que acontece nesta temporada. No Corinthians, Ronaldo chegou suscitando dúvidas em parte da Fiel, que não acreditava em uma nova volta por cima do Fenômeno. Além de resquícios de suas noitadas cariocas e de sua segunda lesão no joelho, os quilos a mais seriam um peso extra que o jogador teria que carregar nesta nova fase. E carregou! Se Ronaldo já não tem o arranque e a velocidade dos tempos fenomenais em que vestia a camisa do Barcelona, ele tem se saído bem com as bolas nos pés e decidido as partidas pelo Timão. Já foram dois títulos conquistados e muitos gols.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No Parque Antártica, Obina chegou desacreditado pela “Turma do Amendoim” do Palestra. Com 97 quilos, pesavam sobre ele (sem trocadilhos...) a fama de “caneludo”, cuja técnica era substituída única e exclusivamente pela sorte. Resultado: em poucos jogos, o grandalhão e desengonçado centroavante se tornou um dos artilheiros do Porco (com gols de tudo que é jeito) e, de quebra, meteu três no clássico contra o arquirrival Corinthians.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Os gordinhos têm e sempre terão espaço no futebol. O que dizer de Don Diego Armando Maradona e sua classe e técnica incontestáveis? No Brasil, quem não se lembra de Lela (no Coxa) e Oséas (no Atlético), que, longe de serem exemplos de forma física (ou de craques), resolveram pelos seus clubes e conquistaram títulos importantes.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ronaldo costuma dizer que a cada gol que marca fica mais magro. Não emagreça, não, Ronaldo. Esta é a vez dos gordinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Felippe Aníbal&lt;/strong&gt; &lt;em&gt;é jornalista, peladeiro e, embora megrelo, aprecia o futebol dos gordinhos&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;strong&gt;* texto originalmente escrito para o jornal Saideira&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-1841795413802318563?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/1841795413802318563/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2009/09/vez-dos-gordinhos.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/1841795413802318563'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/1841795413802318563'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2009/09/vez-dos-gordinhos.html' title='A vez dos gordinhos'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/Sp3K6_d-bHI/AAAAAAAAABI/xfnMeGE_2OA/s72-c/Gustavo_Duarte_-_Ronaldo_no_Corinthians.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-9034855733445115991</id><published>2009-08-24T17:41:00.000-07:00</published><updated>2009-10-05T17:23:59.424-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>Cuitelinho</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/SpM57KmiOSI/AAAAAAAAABA/TZyAUTulNxM/s1600-h/cantores+(2).jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5373702469004179746" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 234px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/SpM57KmiOSI/AAAAAAAAABA/TZyAUTulNxM/s320/cantores+(2).jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Era um homem rude. Não porque quisera sê-lo, mas porque a vida havia o tornado assim. Sua rispidez era, antes, um mecanismo de auto-defesa, uma carapaça que havia criado quase que naturalmente para suportar os dissabores e provações pelos quais tinha que, cotidianamente, passar naquela cidade grande.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Seu cenho – agora sempre franzido, fechado – não lembrava, nem de longe, a expressão diáfana de seus seis anos. Trazia vivas na memória – e não raramente sonhava com estas cenas – as tardes em que corria descalço entre as fileiras de pés de café, que se estendiam pelo horizonte, a se perder de vista. Tocava os frutos vermelhos que caiam das árvores carregadas com delicadeza, como se fossem o rubi que adornava o colar com o qual sua avó ia à missa aos domingos. À noite, as famílias de colonos que trabalhavam na fazenda, se reuniam em torno de uma fogueira para ouvirem os lamentos de uma viola bem ponteada. Quando sentia os acordes de “Cuitelinho” era como se a felicidade daquele dia fosse cristalizada em sua alma.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, no ano seguinte, os robustos pés de café perderam a poesia para aquele menino de olhos vivos. Suas mãos suaves deixaram de tocar sonhos para se esfolarem na lida diária da lavoura. Aos sete anos, metia os dedos frágeis entre as árvores e retirava os, outrora, tão singelos frutos. A cada espinho que lhe dilacerava a pele, a cada esfolado, suas mãos se tornavam mais ásperas. Acompanhando este movimento, sua alma se embrutecia. À noite, o cansaço dominava seu corpo e já não tinha ímpetos de ouvir o choro da viola.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Agora, mais de trinta anos depois, ele se perde em fileiras de concreto na capital do Estado. Migrara forçadamente há mais de quinze anos, quando a mecanização chegou à fazenda e pôs à rua levas de trabalhadores. Na cidade grande, se virava como podia. Sobrevivia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Sua alma se tornara ainda mais árida e seu corpo transparecia esse estado. As mãos grossas refletiam a aspereza com que a vida havia lhe tratado. Parecia querer se ocultar por detrás dos cabelos que lhe pendiam sobre o rosto. A barba espinhosa lhe dava um aspecto agressivo, embora não pudesse causar mal a ninguém a não ser a si próprio.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Naquele domingo cinzento, aproveitava o movimento de uma feira de artesanato da cidade para catar latas de alumínio. Os olhares tortos que lhe lançavam feriam mais sua alma do que os espinhos dos cafezais, quando tinha seis anos. Tentava defender-se como podia. Mas era inevitável.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Uns acordes melosos lhe chamaram a atenção. Uma dupla de músicos cegos, cada qual com seu violão, tocava modas de viola.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Depositou seu saco de latas no chão e sentou-se o mais perto deles que pôde. Foi quando ouviu os versos:&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;“Cheguei na beira do porto&lt;br /&gt;Onde as ondas se espáia&lt;br /&gt;As garça dá meia volta&lt;br /&gt;E senta na beira da praia&lt;br /&gt;E o cuitelinho não gosta&lt;br /&gt;Que o botão de rosa caia, ai, ai, ai”... &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, era “Cuitelinho”, a música favorita de sua infância. Fechou os olhos, e viajou de volta à fazenda de seus seis anos. Podia correr novamente entre os cafezais e sonhar. Ninguém percebeu, mas aquele homem rude chorava.&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;object width="320" height="266" class="BLOG_video_class" id="BLOG_video-94cba6a4d9bb2433" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/get_player"&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF"&gt;&lt;param name="allowfullscreen" value="true"&gt;&lt;param name="flashvars" value="flvurl=http://v12.nonxt4.googlevideo.com/videoplayback?id%3D94cba6a4d9bb2433%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331722267%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D4A753BADE77BF5C700D8741A0B5E802625C080BE.67F2698CC778042F9DC557E0487BE48897B5C98D%26key%3Dck1&amp;amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D94cba6a4d9bb2433%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3D3XuQU3AcbfWR5dyM-HnK5NSZ0rY&amp;amp;autoplay=0&amp;amp;ps=blogger"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/get_player" type="application/x-shockwave-flash"width="320" height="266" bgcolor="#FFFFFF"flashvars="flvurl=http://v12.nonxt4.googlevideo.com/videoplayback?id%3D94cba6a4d9bb2433%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331722267%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D4A753BADE77BF5C700D8741A0B5E802625C080BE.67F2698CC778042F9DC557E0487BE48897B5C98D%26key%3Dck1&amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D94cba6a4d9bb2433%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3D3XuQU3AcbfWR5dyM-HnK5NSZ0rY&amp;autoplay=0&amp;ps=blogger"allowFullScreen="true" /&gt;&lt;/object&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-9034855733445115991?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='enclosure' type='video/mp4' href='http://www.blogger.com/video-play.mp4?contentId=94cba6a4d9bb2433&amp;type=video%2Fmp4' length='0'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/9034855733445115991/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2009/08/cuitelinho_24.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/9034855733445115991'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/9034855733445115991'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2009/08/cuitelinho_24.html' title='Cuitelinho'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/SpM57KmiOSI/AAAAAAAAABA/TZyAUTulNxM/s72-c/cantores+(2).jpg' height='72' width='72'/><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4589026845238817314.post-511144704712261849</id><published>2009-08-20T19:16:00.000-07:00</published><updated>2009-10-05T17:26:22.463-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>O mendigo e o livro</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/So4IIN1qYoI/AAAAAAAAAAM/0i-RLfDFsJs/s1600-h/decamer%C3%A3o.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5372240342746292866" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 240px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/So4IIN1qYoI/AAAAAAAAAAM/0i-RLfDFsJs/s320/decamer%C3%A3o.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ele entrava na padaria com uma dignidade inabalável, embora alguns dos clientes torcesse o nariz diante de sua presença, enquanto outros, ainda, simplesmente ignoravam-no. Um tipo magricela e de óculos, que parecia ser o gerente da casa, se precipitou e fez menção de expulsar o homem que àquele instante se recostava ao balcão.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Não vou sair! E meu direito de ir e vir? - emendou, encurtando conversa.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Trazia um enorme saco plástico preto, repleto de papelão. Metido em uma calça rota e em uma blusa de moletom preta e desbotada, locomovia-se com dificuldade, mancando da perna esquerda. De quando em quando, coçava a longa e grossa barba branca, que lhe dava uma aparência quase que medieval.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Pode servir um café com leite e um pão com manteiga ao senhor, que eu pago. - disse eu ao magricela de óculos, que me fulminava com o olhar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Agradecido (mas sem parecer servil), o homem se dirigiu a mim, mostrando as mãos calejadas e sujas, como provas de que era ele um trabalhador. Reclamou com uma das funcionárias pela demora em servir-lhe o desjejum, ao que esta retribuiu com cara de indiferença.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Sente-se senhor. - sugeri.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Na mesa com o senhor? - perguntou ele, mas já se acomodando em uma cadeira diante da minha, antes que eu respondesse afirmativamente. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;De cara, mostrou-me seus coturnos, relativamente novos, encontrados soterrados em uma lata de lixo. Morava na rua. Naquela mesma manhã, quase fora despertado com um balde de água fria, por dormir sob uma marquise, tentando se proteger do frio com os papelões que catava para revender à reciclagem. Contou-me que chegara a ficar quinze dias sem comer (ao que eu prontamente protestei e acusei ser uma inverdade), que perambulava de uma cidade a outra sem motivo aparente. Ficar em um mesmo lugar por muito tempo, fazia sentir-se aprisionado. Queria que sua alma gozasse do direito de ir e vir.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Enfim, uma das empregadas serviu-lhe, forçando-se para parecer simpática. Ele deu de ombros. Comeu com a voracidade de quem tem fome, enquanto farelos do pão incrustavam-se entre os fios espessos de sua barba.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;De relance, percebi que todos olhavam para a mesa em que estávamos. O homem também percebeu e fez um breve discurso contra o preconceito, falou sobre a efemeridade da vida e sobre a pequenez do pensamento daquelas pessoas. Entretanto, calou-se no meio de um pensamento. Do saco, tirou um livro grosso, de capa dura. Decamerão, de Bocaccio.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Falta-lhes leitura! - sentenciou.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Não me lembro do restante da conversa. Creio que nem seja necessário.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4589026845238817314-511144704712261849?l=esparsaspalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/feeds/511144704712261849/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2009/08/o-homem-na-padaria.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/511144704712261849'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4589026845238817314/posts/default/511144704712261849'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esparsaspalavras.blogspot.com/2009/08/o-homem-na-padaria.html' title='O mendigo e o livro'/><author><name>Felippe Aníbal</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05623163553469429484</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-a6c9Bb2k42A/TgXxvfUBk7I/AAAAAAAAA_E/gV1HYBtDvb8/s220/rio.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_MfETkMKAZJs/So4IIN1qYoI/AAAAAAAAAAM/0i-RLfDFsJs/s72-c/decamer%C3%A3o.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry></feed>
