terça-feira, 19 de novembro de 2013

Despedida



É assim. De repente, tudo acaba subitamente. Como uma pancada que não se sabe de onde veio, uma freada brusca em plena rodovia, uma pedra que cai. Por quê, camarada? Quais os motivos? Parece piada de mau gosto. Angustiado, com o choro preso à garganta, procuro respostas que não encontro. Jamais encontrarei. Eu não sei e você não está aqui para me explicar. Por quê?

E a cerveja que combinamos tomar no meu retorno das férias? E o filtro dos sonhos que te daria de presente de aniversário para afugentar seus pesadelos? E as observações que eu faria sobre os livros que você me deu? Guardo-as pra mim? Você nem sabe, mas a Bruna planejava te dar um salto de paraquedas de presente. Eu saltaria contigo, meu irmão.

De repente, você se foi, camarada. Não tivemos tempo de um último almoço na sua casa (feijoada ou churrasco?). Não pudemos tomar a última cerveja n’O Torto, depois do trabalho. Não pudemos jogar a última pelada de sábado. Sequer te encontrei numa esquina qualquer, amiúde, para trocar dois dedos de prosa.

Felizmente, nunca perdi a oportunidade de dizer que te amo, camarada, e do quanto é importante pra mim. Aplaudi sua luta e cada vitória cotidiana: o primeiro aumento salarial, a primeira promoção, a compra da casa, do carro, a viagem de férias. Não deixei de te agradecer, a cada encontro, por toda força que sempre me deu e por ser meu amigo. Mas agora, não há despedida. Não há mais aquele abraço apertado, o beijo no rosto e o “Fica com Deus e se cuida, feio”.

Você tinha o melhor coração do mundo, cara. O mais bonito. Por essas ironias sem graça da vida, nos deixou justamente porque ele teimou em parar de bater. Vá entender. Daqui, o meu coração continua a pulsar, mas já não é mais o mesmo: está com um puta vazio. O que reconforta é que sei que, onde quer que esteja, você está bem. Afinal, você não era para este mundo, camarada. Sua alma pura e boa, que não compreendia as mazelas do lado de cá, deve estar bem melhor agora.


Fique em paz e olhe por nós, Galão. “Fica com Deus e se cuida, feio”.

19/11/2013

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Infinito








"¿Cuánto tiempo te quedarás conmigo?
¿Preparo o café o preparo mi vida?"
(Pichação em muro)

Ela pairava sobre o infinito. Mas o infinito era logo ali, tão próximo que era quase possível tocá-lo com a boca. Dourado, resplandecia um brilho com um quê metálico e intenso. Ou talvez a luz viva fosse o reflexo do sorriso dela, que vertia espontaneamente, aqui e acolá, como a frear a noite que avançava suavemente. Por vezes, devo ter sorrido também (inevitavelmente, como um copo de água que cai e se estilhaça). Todas as sensações cravadas em cada um dos cinco sentidos e, ao mesmo tempo – e contraditoriamente – escapando a todos eles. De repente quem está sobre o infinito sou eu (sem a mesma graça, evidentemente, mas com a clareza da completude). O tudo e o nada que se encaixam hermeticamente, como se tudo passasse a fazer sentido, instantaneamente, de uma hora para a outra.
 
Lá fora, outras poucas luzes, outros sons. Ficam à parte, como se pertencessem a um mundo paralelo, incapaz de violar o universo de cá, dentro. Por um instante, tento esculpir cada reentrância do instante, como se fosse um exercício de litografia. Que “isso” – inominável – fique impresso em algum canto do mundo. Ou mais, que se torne tatuagem. Perene, eterno. Quem sabe se grave tal uma fita k7, daquelas que basta inserir num aparelho e apertar o play. Ou ainda, uma daquelas cápsulas do futuro. Todas as artimanhas para que a memória um dia não venha a me trair, roubando-me o momento, que me é tão caro.
 
Ela é Ar, brisa tênue, que me tira do chão, a flutuar (eu, tão Terra). Em que lua estamos? A minha, em Capricórnio, já não faz sentido (teria sido eclipsada por ela?). Talvez seja ela a estrela primeira, forte presença a encorajar a lua que insiste em crescer, constante evolução. A força estranha de Sagitário – eterno e forte ascendente – me impele, me lança. Salto de olhos fechados, sem medo, sem vertigem, sem receio. Sejamos inteiros, sejamos intensos, sejamos plenos.
 
Ao fim, o infinito é suave, quase um sopro. Faz que se apaga, como a noite, que vai sumindo para dar lugar ao dia. O silêncio fala mais, se faz entender plenamente. Traduz cada capítulo daquilo que foi. Aos olhos que se compreendem, não é necessário dizer mais nada. E do que ainda será? Quem sabe? O infinito cabe em todos os períodos de tempo: um dia ou uma vida. Venha o que vier. Em silêncio, digo "amém".

Curitiba, 22 de maio de 2.013 - 23h46

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Carta aberta aos vereadores de Piraju



Parabéns, nobres vereadores de Piraju! Devo reconhecer: como raposas velhas e matreiras, vossas excelências deram um golpe de mestre. Retirar, às vésperas da eleição municipal, o projeto que revogaria as leis que protegem o nosso Rio Paranapanema de novos empreendimentos para reapresentá-lo depois da votação, já no fim do ano, foi uma grande sacada. Maquiavélico! Digno de ser estudado pelos politiquentos vetustos de Brasília. Afinal, vocês ludibriaram direitinho toda a população (aqueles a quem vocês deveriam representar e de quem deveriam ser a voz no parlamento, sabem?!). Alguns conseguiram até se reeleger, não foi? Aplaudo em pé.

Vossas excelências devem estar se perguntando quem sou para lhes falar/escrever. Apesar de residir fora de Piraju há dez anos, me considero mais pirajuense que cada um dos senhores. Sou mais um que teve que sair de sua terra, não porque quisesse, mas porque os rumos da profissão escolhida – no meu caso, o jornalismo – assim exigiram. Sou mais um, entre centenas, que carrega com orgulho o nome da cidade para onde quer que vá. Sim, somos muitos os “Pirajus”. Abdicamos do nome de batismo para ostentar o de nossa terrinha.

Não vou discorrer sobre o fato de Piraju ser a cidade mais “usinada” do mundo (são quatro hidrelétricas instaladas no leito do Panema que corta a cidade) e que os últimos sete quilômetros de corredeiras do rio simplesmente deixarão de existir caso um novo empreendimento saia do papel na cidade. Isso os senhores devem estar enfadados de saber, apesar de virarem o rosto para o outro lado por conveniência ou interesse.

Falo da importância social e histórica do Paranapanema para nós, pirajuenses. A cidade que se ergueu às margens do rio. Mais que um cartão-postal, as águas são um patrimônio. Nascemos no entorno de suas curvas sinuosas que dividem o município ao meio e crescemos acompanhando seu leito. O Panema não é apenas um curso d’água, antes chega a definir relações sociais. Faz parte de nossa identidade. Negar o rio e negar-nos a nós mesmos.

De longe, acompanho com ansiedade as notícias sobre as negociações/negociatas para derrubar as leis que asseguram ao Panema o direito de permanecer vivo. Falam em propina, em suborno, em corrupção. O rumo da História me leva crer que os rumores estão certos. Lamentosamente, penso que foram corrompidos. Orgulhosamente, aplaudo a população que tem reagido e feito seu papel.

Nobres vereadores, espero que ainda consigam olhar nos olhos de vossas mulheres, filhos, pais e familiares. Espero que consigam dar “bom dia” aos cidadãos sem serem hostilizados. Espero que, caso tenham levado algum dinheiro nesta “história”, que ele seja investido em algo que lhes traga sabedoria. Pois levarão para o túmulo essa traição. Antes, eu tinha vergonha dos senhores pelo nível paupérrimo de nossa Câmara. Sentia pena por terem pouca leitura, serem iletrados ou não terem a menor noção do que é a vereança. Hoje, sinto repugnância. Aversão, asco, desprezo.

Ao prefeito, que não macule sua História e que não venha carregar em sua biografia o peso nefasto de ter lavado as mãos, assinando a sentença de condenação do nosso Panema. Prefeito, eleito pelo povo, ouça a nossa voz: Veta, seu Chico!

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Em tempo. Excluo destas palavras os vereadores professor Luciano Louzada, Valberto Zanata e Denilton Bergamini.




28/11/2012

sábado, 13 de outubro de 2012

Insônia



As três pedras de gelo começam a se derreter no copo. Com a ponta do indicador da mão direita, toco uma delas – a que está no meio – e faço um movimento suave em sentido anti-horário. As outras duas acompanham o fluxo e se chocam suavemente, tilintando no vidro. Apesar do ambiente em meia-luz – o quarto-sala é iluminado apenas por uma televisão ligada que insiste em vociferar no canto – consigo ver a camada fluída do gelo se desvanecendo, submerso em vodca. Densidades diferentes, temperaturas diferentes, que tendem a se fundir, a se equiparar, a tornar-se uma coisa só. Teremos todos essa tendência de nos padronizarmos em um contato mais continuado? Quem define o que é normal? Seremos sempre parte desta massa amorfa, incapazes de nos mantermos originais? Quem somos nós? Um animal moldável.

O ruído de um comercial na tevê interrompe meus pensamentos. A única verdade universal nesta madruga fria é o macete que desenvolvi - ao longo de anos de experiências, diga-se de passagem – para tomar vodca. O método é à prova de caretas e de cuspidas involuntárias que o alto teor alcoólico invariavelmente provoca. É simples: basta manter um pequeno gole na boca, contar mentalmente até dois e engolir em um único trago. O líquido desce queimando, mas, em segundos, a ardência parece fazer o caminho inverso – da base do corpo para a cabeça – provocando uma sensação anestésica benévola. Em três ou quatro doses, o que fica é só o torpor. Talvez o segredo do universo seja este: a maneira como tomamos as bebidas que a vida nos serve em seu copo. Há que se sorver de uma só vez, ainda que o líquido possa parecer que, em determinados momentos, está nos rasgando por dentro. Cedo ou tarde, tudo faz sentido.

Não me recordo como desenvolvi esse “passo-a-passo da vodca”. Creio que foi parodiando a teoria de um tio, segundo a qual o fim de um relacionamento deve ser efetivado como o ato de remover uma tira de esparadrapo da pele. É preciso fazê-lo com um puxão brusco. A dor é intensa, entretanto, em poucos segundos, o que resta é apenas uma vermelhidão tênue na pele. No máximo, uns pêlinhos se vão, grudados na cola da fita. Se você optar por retirar o esparadrapo lentamente, a dor será um pouco menor, mas se estenderá por muito mais tempo. Sofrimento prolongado, meu caro. Você escolhe.

Lá fora, um cara esbraveja com uma prostituta. O carro dele – um esportivo que não consigo distinguir à distância (sou péssimo com marcas e modelos...) – está estacionado à esquerda da rua. O sujeitinho segura a moça pelo braço direito e a sacode veementemente, fazendo-a parecer um boneco bisonho. A garota grita num tom estridente. Consigo entender apenas algumas palavras/palavrões. Parece-me que o playboy não a pagou pelo “programa” e ela, por sua vez, arranhou a porta do brinquedinho dele. Um outro tio meu costumava dizer: “essa molecada de hoje não sabe comer puta”. Vou além: eles não sabem é comer Mulher. É sempre esse joguinho de cena, são esses eternos simulacros, em que ninguém sabe ao certo o que é e quem é o outro. Em um universo de faz de conta, é muito mais fácil pegar uma menina dessas para tentar manter a auto-estima, a se arriscar por alguém de verdade e por inteiro. É fato, tio. Pode escrever.

No meu copo, os gelos já derreteram. O que resta são dois dedinhos de vodca, que entorno sem fazer cara feia. Na tevê, um chuvisco acompanhado do chiado característico confere ao quarto-sala o aspecto de um típico cenário de Hitchcock. A programação da televisão acabou, assim como o sentido desta noite. Agora, sou apenas eu, debruçado sobre a janela, com um copo vazio à mão, olhando o céu vermelhento (amanhã vai chover, com certeza), me esfolando em ideias perdidas, lutando para encontrar vestígios de sono... até que o dia amanheça. Mas nada disso vai mudar.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Mala pronta




"Não tenho nada a dizer
Eu fico mudo quando a dor te corta
Seu corpo exige atenção
E nessas horas nada mais importa"
Quando a dor te corta (Leoni)



Quando Alberto chegou ao sétimo andar, a mala jazia ao lado da porta, do lado de fora do apartamento. Sozinho, aquele volume inerte parecia contrastar com o capacho, no qual se lia em letras pretas, em baixo-relevo: “Bem-vindo!”. Afixado com fita adesiva, próximo à alça superior da bagagem, havia um bilhete escrito à mão. A letra – tortuosa, mas firme como quem calcou a caneta contra o papel - denotava um quê de aflição, de desespero talvez. Antes de correr os olhos pela missiva, ele coçou o lóbulo da orelha esquerda, cacoete que sempre o acometia diante de maus presságios. Ainda sentiu um certo desconforto no estômago, antes de ler a única palavra grafada. “Acabou”.

Seu primeiro ímpeto foi esmurrar a porta até que ela viesse abaixo, até que os punhos estivessem em frangalhos, ou até que Isabela o atendesse. Ela não havia tido sequer a dignidade de olhá-lo nos olhos pela última vez, de se despedir ou de se justificar. E agora, era aquilo. Uma mala à porta do apartamento, um bilhete seco e fim! E que motivos havia para isso? Nada de concreto.

Contrariando sua própria natureza – e sufocando o torpor que lhe corroia as entranhas -, Alberto sentou-se lentamente ao lado da porta, sacou um maço de cigarros, do qual retirou um e o acendeu. (“Dane-se a lei antifumo”, disse para si mesmo). Entre uma baforada e outra, tentou refazer o caminho que lhe havia trazido até o ponto onde se encontrava. Ali mesmo, à soleira, meteria o dedo na ferida em carne viva. Tentaria entender o ininteligível, numa catarse solitária.

Em um insight, lhe surgiu a imagem de uma concha hermeticamente fechada. Era a tradução exata e precisa do que ele era. Ensimesmado, fechado, contido. Talvez por ser um homem dos números, das ciências exatas? Não! Esses sintomas já estavam ali muito antes de Alberto se tornar um bancário bem sucedido. Tinha dificuldade em verbalizar o que sentia. “Casmurro!”, sussurrou, quase com vergonha da conclusão a que havia chegado.

Começou a lhe pesar aspectos de sua personalidade. De quando em quanto, tinha necessidade brutal de ficar sozinho. Fechava-se em seu mundo (sua concha?), onde só havia ele. Certa vez, seu melhor amigo lhe avaliou: “Parece que você gosta da solidão...”. À época, Alberto se incomodou com o comentário. Agora, concordava. “Ele estava certo”, suspirou.

E Isabela, diante disso? Estava ali, negligenciada, sozinha, mendigando a Alberto migalhas de afeto, sobras amanhecidas de amor. Ela cuidara dele com devoção, o admirara como alguém único e se doara por inteiro. A moça havia feito planos, sonhado, criado expectativas. Talvez, até por isso, ela tenha o idealizado, criado uma fôrma na qual Alberto não se encaixa. Pior: ele não tinha ímpeto para se adequar. Arredio. Praticamente um bicho.

Alberto pensou na dor de Isabela, no quanto ela havia sofrido calada ao longo de todos aqueles meses, sem se sentir preenchida. “Se ela se visse como a vejo, não seria tão insegura”, murmurou. Sentia-se chafurdando em culpa. Sua casmurrice havia danificado o que lhe havia de mais precioso. Ele cerrou os dentes quando achou os versos precisos: “É claro que te amo/ E tenho tudo para ser feliz/ Mas acontece que sou triste...*”.

Dobrou o indicador da mão direita e o mordeu com força. Podia lidar com sua própria dor, mas era incapaz de suportar o fato de causar sofrimento a Isabela. Naquele instante, compreendeu que não seria capaz de olhá-la nos olhos pela última vez, nem de ter a conversa derradeira. Não seriam necessárias explicações. Alberto sentia que fazia mal a ela e isso era tudo. Aceitou o inevitável. Levantou-se solenemente e pegou a mala pela alça. Antes de sair, limpou os pés no tapete, como se tivesse ciência de que deixava tudo para trás. Apesar de disso, não haveria de derramar lágrimas.

Curitiba, 3h14 de 27 de junho de 2012.

* "Dialética", Vinícius de Moraes



quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O nome da dor




A primeira fase é a da negação. Você não acredita, refuta veementemente. Mentira estapafúrdia ou uma conspiração para ensandecê-lo. Neste meio-tempo, você vai sentir o chão evaporar-se por debaixo de seus pés. Suas pernas ficarão dormentes, latejantes, como se estivesse bêbado, flutuasse, ou, talvez, tentasse caminhar sob uma superfície irregular. “Piada de mau gosto”, você pensa, enquanto, quase em transe, tenta pôr as ideias no lugar. Mas tudo parece girar ao redor de ti em uma velocidade e sequência ininteligíveis. As pessoas que soluçam a sua volta dão mais verossimilhança à “notícia”, e tornam a cena ainda mais surreal. Como um autista, você vai repetir inúmeras vezes para si mesmo: “Meu filho não pode ter morrido, meu filho não pode ter morrido!”. E vai buscar argumentos sem lógica para embasar sua teoria. “Ontem ele teve uma melhora considerável”.

A fase seguinte é a mais dolorosa e só se concretiza quando você vê o corpo, ali na sua frente, inerte, sem vida. Não há mentira ou complô: a Morte, com seu bafo quente, soprou sua nuca. No meu caso, entrei na UTI aos atropelos, empurrando para longe dois enfermeiros que tentavam me conter. Meu filho estava ali, deitado, com o rosto levemente voltado para a esquerda e com a boca entreaberta, denotando um quê de alívio. Clichê dos clichês: parecia que dormia.

A explosão ou raiva – a terceira etapa – pode vir logo em seguida ou pode demorar um pouco, de acordo com a pessoa. Na minha mulher, o desespero bateu de imediato. Correu à maca e puxou o filho contra o seu peito, em um abraço compulsivo. O descompasso do ato ampliou minha dor. Era como se ela abraçasse um boneco, em um teatro grotesco. Virei as costas e saí, cegado pelas luzes frias do corredor do hospital. A cada passo, meu sangue entrava em ebulição. Atravessei a porta de vidro em um soco, enquanto um dos cacos rasgava-me o antebraço em um corte longitudinal. A cada ponto que o médico me dava, eu soltava um palavrão diferente. Não havia dor física, mas a necessidade de libertar o sofrimento.

“Por que? Deus, você se acha tão maravilhoso, a ponto brincar com a vida, como se as pessoas fossem marionetes manipuladas por ti? Que vá ao diabo! Está feliz agora?” Lembrei-me de meu bisavô – italiano do Vêneto – que em suas eternas “rixas” com Deus, voltava-se para o céu e cruzava os dedos, como se fizesse uma forca. “Grandessíssimo filho da puta”, vociferava. Quando o doutor apertou a última sutura, lembrei-me da cor de cera do meu filho morto. O que era ele agora? Um amontoado de carne sem vida. Uma ânsia subiu-me de uma vez. Vomitei no meio da sala. Na faculdade, um professor sempre repetia, como um bordão: “O ser humano é um saco de bosta”. Não passamos disso.

Na última fase, você se resigna, aceita. Mais por cansaço do que por convicção. Você está em frangalhos, dilacerado e sabe que nunca mais será a mesma pessoa. Carrega uma bela tatuagem na alma, que sempre estará ali, te lembrando da dor, da dor, da dor. Você vai manter o quarto dele intacto, com os livros, os brinquedos, as fotografias. Sentirá falta da bagunça, da maneira como ele te abraçava. De quando em quando, vai abrir o guarda-roupa e cheirar desesperadamente as camisetas dele, tentando, por meio desse ritual desesperado, resgatá-lo de volta à vida.

Não pense que a aceitação ocorre mais rapidamente para quem tinha o filho doente. O meu tinha câncer na medula. Lembro-me, coitadinho, do choro contido quando foi obrigado a rapar os cabelos, que cairiam por conta da quimioterapia. Passei gilete nos meus, para demonstrar apoio, mas, eu pergunto: adiantou? Quando se tem parente em hospital, se espera que ele saia curado, livre, saudável. Ninguém acredita que a Morte está a espreitar. A esperança é renovada a cada dia, a cada procedimento, a cada etapa do tratamento. É dor do mesmo jeito.

Meu filho só tinha nove anos. Não o vi sentar-se à sala numa tarde de sábado, para apresentar sua primeira namorada. Não o repreendi pelo primeiro porre que tomou com os amigos. Não passei noites em claro ao lado dele, ajudando-o estudar para a recuperação final. Não enxuguei suas lágrimas quando teve a primeira decepção amorosa nem vibrei quando passou no vestibular. Não pude ensiná-lo a dirigir nem filosofar sobre a vida com ele ao cair da tarde. Por que? Eu não sei.

O fio que separa Vida e Morte é muito tênue. Morrer não tem sentido, não tem graça, não tem lógica. O absurdo é ainda maior quando a ordem natural se inverte e quem se vai é um filho. A sabedoria popular diria que o correto é os filhos enterrarem os pais, e não o inverso. Concordo. Quem perde a esposa, fica viúvo. Se o filho perde os pais, torna-se órfão. Mas quando quem morre é o filho, não há nome, não há designação. Talvez porque, neste caso, seja impossível classificar a dor.



Curitiba, 12 de janeiro de 2012

sábado, 20 de agosto de 2011

As revistas do Gim

As mulheres mais desejadas do Brasil ficavam naquela barbearia, lindas, nuas, apetitosas e em poses provocantes. Tudo bem que elas não estavam ali em carne, osso e voluptuosidade, mas impressas em folhas de dezenas e dezenas de revistas. Mas para nós - garotos de nove, dez anos, recém-saídos dos cueiros - aquelas páginas eram como entrar em um universo proibido. Primeiro passo pelos caminhos desconhecidos da sexualidade. Quantos meninos não tiveram seu primeiro “alumbramento” (como diria Bandeira) folheando a incrível coleção de Playboy’s do salão do Gim?

Cortar o cabelo era um ritual. Escolhíamos as tardes de sábado, porque havia sempre mais clientes e teríamos mais tempo para degustar as páginas. As revistas ficavam em armário de madeira no fundo do salão e o curto trajeto até lá parecia infindável. Era como se todos os homens do recinto olhassem para a gente. Com ar de transgressão, pegávamos uma das publicações sem escolher muito e retornávamos ao banco com o peito estufado, como se exalássemos masculinidade. Ali, entre as tesouradas hábeis do Gim, nos deleitávamos entre peitos, curvas, sorrisos, lábios e dedinhos na boca. O difícil era esconder o impacto que a “leitura” nos causava, nós, pobres meninos.

Às vezes, Gim olhava feio em nossa direção e assoviava, meneando a cabeça, repreendendo o nosso ávido interesse por aquelas revistas. Mas essa censura se dava por detrás de um sorriso contido, como quem se diverte com “artes” de moleques. Com o tempo, o Serginho desenvolveu algumas estratégias. A principal era colocar a Playboy no meio de uma revista de carros, despistando os olhos inquisidores dos velhos abutres.

Vez ou outra, aparecia algum menino levando um amigo menor para conhecer os segredos escondidos do salão do Gim. Era quase uma tradição. Para não quebrar a corrente, eu mesmo, apresentei a coleção de revistas a um primo, então com oito anos. A reação dele foi espontânea: “Tô com o pipi duro!”, exclamou, para risos gerais na barbearia.

Assim, crescíamos entre os cortes do Gim (“aparado-curto”, “tigelinha” ou “arrepiado”?) e as semi-deusas que povoavam aquelas folhas de papel e os nossos sonhos. Adquirimos uma capacidade incrível de memorizar cada detalhe daquelas mulheres. Na hora do recreio, na escola, nos reuníamos no canto do pátio para trocar impressões e para discutir sobre nossas preferências.

Luma de Oliveira ou Bruna Lombardi? Vera Zimmerman ou Cláudia Ohana? Isadora Ribeiro ou Cristiana Oliveira? Nem a Mara Maravilha escapou... (Éramos capazes de descrever com precisão cada uma delas...). Seios fartos ou miúdos? Loira, negra, ruiva ou morena? Pêlos pubianos? (Tenho pra mim que a legendária pose da Adriane Galisteu rapando a própria virilha – já alguns anos mais tarde – foi um divisor de águas e selou a onda da depilação).

Gim morreu há alguns anos (foi-se muito novo), mas a barbearia continua cravada no centro da cidade, tocada por seu aprendiz, o Totó. Segundo consta, as revistas permanecem no mesmo armário de madeira, ao fundo do salão, mas já não fazem tanto sucesso. Perderam espaço para a concorrência desleal dos filmes pornográficos piratas (três por R$ 10) e para internet. Já não há aquele ar de transgressão, o medo de que alguém contasse para nossas mães. Já não é preciso decorar as imagens até o mês seguinte. Tudo está tão fácil, tão acessível, que até deve ter perdido a graça. Duvido que uma clicada tenha o mesmo sabor dos sábados entre as páginas da barbearia. Gim se foi. O encanto das revistas também.


Curitiba, 20 de agosto de 2.011